Era um morto encontrado na rua.
Levam-no em padiola
Para casa que não era sua,
Uma casa grande, como um centro político, ou escola.

Levam-no, apanhado do chão,
Caído por doença súbita, desconhecido.
Tinha, como nós todos, vida e coração.
Apanham-no no chão, caído.

Diz o jornal «com ar de operário», mas até
Que não dissesse, que ar poderia ter
Verdadeiramente quem publicamente só é
Apanhado do chão, onde ficou a morrer?

Vejo levá-lo na padiola, e em minha alma
Há um frio que desconheço, um pavor.
Levam-no para a morgue pela tardinha calma...
Que tenho eu de melhor ou certo, ou de melhor.

Não foi identificado? Qual de nós o é?
Em padiola? É diferente ir morto em caixão?

5 - 2 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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