Vou em mim como entre bosques
Vou-me fazendo paisagem
Para me desconhecer.
Nos meus sonhos sinto aragem,
Nos meus desejos descer.

Passeio entre arvoredo
Nos meandros de quem sinto
Quando sinto sem sentir…
Vaga clareira ou recinto,
Pinheiral todo a subir…

Grande alegria das mágoas
Quando o declive da encosta
Apressa o passo sem querer…
De quem é que a minha alma gosta
Sem que eu tenha de o saber.

Sorriso que no regato
Através dos ramos curvos
O sol, espreitando, achou.
Fluir de água, com tons turvos,
Onde uma pedra a desviou.

Muito curva, muita cousa,
Todas com gentes de fora.
Na alma que sinto assim…
Que paisagem quem se ignora!
Meus Deus, o que é feito de mim?

4 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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