Um calor morto e mole move
As árvores com vento lento.
Nada em minh’alma se comove.
Não há nada em meu pensamento.

Se quis, hoje foi outro quem quis.
Se tardei, tardo ainda. O céu
Não tem azul, tem o matiz
Dum cinzento que embranqueceu.
 
E há só em mim, se me perscruto,
Como que um grande largo só
Numa cidade ruína e luto,
De quem os deuses não têm dó.

15 - 6 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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