A minha alma encomendo
a Noé e a outro não,
o meu corpo enterrarão
onde estão sempre bebendo.
Leixo por minha herdeira
e também testamenteira,
Lianor Mendes d’Arruda,
que vendeu, como sisuda,
por beber, até a peneira.

Item mais, mando levar
por tochas, cepos de vinha,
e ũa borracha minha
com que m’hajam d’encençar,
porque teve malvasia.
Encencem-n’assi vazia,
pois também eu assi vou;
e a sede que me matou
venha pola clerezia.

Levar-m’-ão em um andor,
de dia, às horas certas
que estão as portas abertas
das tavernas per’u for;
eu irei, pois mais não pude,
num quarto por ataúde,
que não tevesse agoapé;
no sovenite, a Noé
nomeem sempre ameúde.

Diante irão, mui sem pejo
trinta e seis odres vazios
que despejei n’estes frios,
sem nunca matar desejo.
Não digam missas rezadas:
todas sejam bem cantadas
em framengo e alemão,
porque estas me levarão
às vinhas mais carregadas.

Item, dir-me-ão, por dó meu
quatro ou cinco ou dez trintairos,
cantados por taes vigairos
que não bebam menos que eu:
sejam d’estes, três d’Almada
[………………………………………….]
e cinco d’aqui da Sé
que são filhos de Noé
a quem som encomendada.

Venha todo sacerdote
a este meu enterramento
que tever tão bom alento
come eu teve cá, de cote:
os d’Abrantes e Punhete,
da Arruda e d’Alcochete,
d’Alhos Vedros e Barreiro,
me venham cá sim dinheiro
até cento e vinte sete.

Item, mando vestir logo
o frade alemão vermelho
d’aquele meu manto velho
que tem buracos de fogo.
Item mais, mais mando dar
a quem se bem embebedar
no dia em que eu morrer
quanto móvel hi houver
e quanta raiz se achar.

Item mando agasalhar
das órfãs, estas (nô mais)
as que por beber dos pais
ficam proves por casar,
às quais darão por maridos
barqueiros bem recozidos
em vinhos de mui bons cheiros;
ou busquem tais escudeiros,
que bebam coma perdidos.

Item mais, me cumprirão
as seguintes romarias
com muitas Avé-marias,
e não curem de Monção.
Vão por mi à Santa Orada
da Atouguia e a Abrigada,
e à Curujeira santa,
que me deram à garganta
saúde à peste passada.

Item mais me prometi
nua à Pedra d’Extrema,
quando eu tive a postema
no beiço de baixo aqui.
E porque grã glória senta,
lancem-me muita água benta
nas vinhas de Caparica,
onde meu desejo fica
e se vai a ferramenta.

Item me levarão mais
um grão círio pascoal
ao glorioso Seixal,
senhor dos outros Seixais:
sete missas me dirão
e os cáliz encherão;
não me digam missa seca:
porque a dor da xaqueca
me fez esta devação.

Item mais, mando fazer
um espaçoso esprital,
que quem vier de Madrigal
tinha onde se acolher.
E do termo d’Alcobaça
quem vier dêm-lhe em que jaça;
e dos termos de Leirea
dêm-lhe pão, vinho e candea,
e cama, tudo de graça.

Os d’Óbidos e Santarém,
se aqui pedirem pousada,
dêm-lhe de tanta pancada
como de maus vinhos têm.
Homem d’Antre Douro e Minho
não lhe darão pão nem vinho;
e quem de Riba d’Ávia for
fazei-lhe, por meu amor,
como se fosse vizinho.

 Fim

Assi que, por me salvar,
fiz este meu testamento,
com mais siso e entendimento
que nunca me sei estar.
Chorai todos meu perigo,
não levo o vinho que digo,
que eu chamava das estrelas,
agora m’irei per’elas
com grande sede comigo.

 

Gil Vicente
TESTAMENTO
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