Quem governa mais longe que só os gestos?
Quem pode mandar mais do que o Destino?
Mithras, meu pai, □

Regente inátil de um império extinto,
Portador de um cadáver sobre mim,
Minha vontade morre no precinto
Da minh’alma, sem alma alguma afim.
Meus decretos são água tal qual um
Homem só a consegue arremessar
Sobre o incêndio de um país. Nenhum
Salva o que a si se não pode salvar.
Minha voz em nenhuma alma calha,
Meu trabalho por nada e vil trabalha,
Passeio o esforço meu entre desastres.

 


[1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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