Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos... 
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto, 
Árore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval, 
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma, 
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir! 
Queria gritar alto com uma voz que dissesse! 
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu! 
Queria ser lá fora... 
Mas o que sou? O trapo que foi bandeira, 
As folhas varridas para o canto que foram ramos, 
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia, 
Eu que quis fora a minha alma inteira, 
E ficou só o chapéu do mendigo debaixo do automóvel, 
O estragado estragado, 
E o riso dos rápidos soou para trás na estrada dos felizes... 


□ espaço deixado em branco pelo autor
10 - 5 - 1929

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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