A ‘sperança, como a um fósforo inda aceso, 
Joguei ao chão, e ardeu no chão ileso. 
A falha natural do meu destino 
Reconheci, como um mendigo preso. 

Cada dia me traz com que ‘sperar 
O que dia nenhum poderá dar. 
Cada dia me cansa da ‘sperança... 
Mas vivo de ‘sperar e de cansar. 

O prometido nunca será dado 
Porque com prometer cumpriu-se o fado. 
O que se espera, se esperar é doce, 
Gozou-se com esperá-lo, e é acabado.6 

Quanta ache vingança contra o fado 
Nem deu o verso vingador, e o dado 
Rolou da mesa abaixo, sem ser visto 
Nem o buscou o jogador cansado. 
22 - 11 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar