I


Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
           Oferecendo a flor
           Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
           Não existe piedade
           Para aquele que hesita. 

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
          Longo indelével rasto
          Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
           Vai sempre mais à frente
            Do que o teu próprio passo


II


Escuta, Lídia, como os dias correm
          Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
          Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
           Que nos tornou atentos


III


Ausentes são os deuses mas presidem.
         Nós habitamos nessa
         Transparência ambígua,

Seu pensamento emerge quando tudo
         De súbito se torna
         Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
          Nossa atenção ao mundo
          É o culto que pedem.


IV

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.

 

V


Faz da vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
          Docemente cortado
          Pelo rio das noites.

Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
          Inflexível assiste
          À tua própria ausência.

 

VI

Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
P’ra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.


VII

Eros, Neera, sacudiu os seus
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.

Palmeiras nas ruínas de Palmira
Eros poisou seu rosto no teu ombro
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.


In Dual
Sophia de Mello Breyner Andresen
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