Eu não procuro nada em ti, 
nem a mim próprio, é algo em ti 
que procura algo em ti 
no labirinto dos meus pensamentos. 

Eu estou entre ti e ti, 
a minha vida, os meus sentidos 
(principalmente os meus sentidos) 
toldam de sombras o teu rosto. 

O meu rosto não reflecte a tua imagem, 
o meu silêncio não te deixa falar, 
o meu corpo não deixa que se juntem 
as partes dispersas de ti em mim. 

Eu sou talvez 
aquele que procuras, 
e as minhas dúvidas a tua voz 
chamando do fundo do meu coração. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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