Se houver além da Vida um Paraíso,
Outro modo de ser e de viver,
Onde p’ra ser feliz seja preciso
 Apenas ser;

Onde uma Nova Terra áurea receba
Lágrimas, já diversas, de alegria,
E em Outro Sol nosso olhar outro beba
 Um Novo e Eterno Dia;
 
Onde o Áspide e o Pomba de nossa alma
Se casem, e com a Alma Exterior
Numa unidade dupla — sua e calma —
 Nossa alma viva, e à flor 

De nós nosso íntimo sentir decorra
Em outra Cousa que não Duração,
E nada canse porque viva ou morra —
 Acalmaremos então? 

Não: uma outra ânsia, a de infelicidade,
Tocar-nos-á como uma brisa que erra,
E subirá em nós a saudade
 Da imperfeição da Terra. 

6 - 11 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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