À beira do precipício 
Brincamos a dançar. 
À beira do precipício 
Que se chama acabar.
 
Há flores pela relva 
E há ervas que são bem 
Como o ar fresco da selva 
E não nos ver ninguém. 
À beira do precipício 

Brincamos a sorrir 
À beira do precipício 
Onde vamos cair 
Porque cansa o brinquedo 
De quem fica guardado.

E um e outro escorrega 
Mesmo brincando a medo 
A gente fica cega 
E cai no precipício 
Que está ao nosso lado 
E à beira do precipício 
Continua o brinquedo 
 


1 - 11 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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