Há em tudo que fazemos
Uma razão singular:
É que não é o que qu’remos.
Faz-se porque nós vivemos,
E viver é não pensar.

Se alguém pensasse a vida
Morria de pensamento.
Por isso a vida vivida
É essa coisa esquecida
Entre um momento e um momento.

Mas nada importa que o seja
Ou que até deixe de o ser.
Mal é que a moral nos reja,
Bom é que ninguém nos veja;
Entre isso fica viver.

 

15 - 9 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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