Ó naus felizes, que do mar vago
volveis enfim ao silêncio do porto
depois de tanto nocturno mal —
Meu coração é um morto lago,
e à margem triste do lago morto
sonha um castelo medieval...

E nesse, onde sonha, castelo triste,
nem sabe saber a, de mãos formosas
sem gesto ou cor, triste castelã
que um porto além rumeroso existe,
donde as naus negras e silenciosas
se partem quando é no mar manhã...

Nem sequer sabe que há, onde sonha,
castelo triste... Seu ‘sp’rito monge
para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha
regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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