É negro a horas e a destino
O nexo oculto do meu ser...
Não me adivinho... Sou a noite...
Talvez haja um dia de mim...
Saibo-me às vezes a divino
E estrelas de não-compreender
Ensinam luz
Na noite do meu ser sem fim...

Sou sem limites, não sei como...
Não sinto em mim contornos ou forma. . .
Sou um som de água misteriosa
Ninguém sabe se longe ou perto,
Numa noite sem espaço... Assomo
E a janela não dá p’ra Forma...
Ah nem uma ilha de □
No □ 

No abismo a Deus e caos que cerca
A extensão toda fora e fim
Há tudo a ocupar por ser
E tudo está completo a nada...
E por mais que o pensar se perca
Não me perde nem acha a mim,
Não sou nem eu... Tudo é conter...
E tudo é uma cousa fechada..


□ espaço deixado em branco pelo autor


[18-9-1914]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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