Como se ser real fosse dormir
E existir uma noite, a Natureza
Estremeceu de o ouvir
Tocada por um sol vindo a florir
Do abismo da Beleza.
 
E cousa a cousa, despertando, a face
Da noite e terra se transfigurou 
E como caem máscara ou disfarce
Seu mudo ser real abandonou.

E uma outra vida, que não é a vida,
Despertou no disperso coração
Da terra indefinida
Da indefinida escuridão.

Portas se abriram no existir das cousas,
Nos seres como que se ergueram lousas,
E outra realidade e outra visão
Desabrochou na árvore e folhas ansiosas
Das cousas como são.
 
Tocadas pelo oculto dom de um canto
Que pela dor e o amor ansioso achou
O segredo primevo do mistério,
O verbo com que abriu o cofre santo
Em que o □
O Destino guardou,

Ondas e ondas de astrais realidades,
Insonhados possíveis murmurando
Rompem de todas as realidades
E num horror de apocalipse abrindo
Desconhecidas almas revelando

E deixando as raízes com que são
Visíveis prisioneiras da matéria,
As árvores em ansiosa confusão
Vão seguindo aonde a voz
Ondula incerta e aérea,
Paira vaga e veloz.

E as feras rejeitando essa raiz
De bruteza que as prende à terra e ao mal
Novos passados □ feliz
Erguem a voz que diz
O que não ouvem, salvo o coração,
Pela estrada em que é margem o real
E solo a emoção.

E ao longe onde, entre os homens, há o sono
Cada um sonha e, ao acordar, dirá
Que se sentiu sonhar e não recorda

13 - 7 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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