Olho a calma alegria
Que do mar ao céu lê
A alma corredia...
E a beleza do dia
Dói-me não sei porquê...

Que perdi eu que a Hora
Lembre sem eu saber?
Dentro de mim que chora
Só porque rememora
O que não pude ter?...

Inquieto e disperso
Pelo mar e na luz
Sinto todo o universo
Magoar-me de imerso
Em calmo horror a flux...

Tão falso e inquieto tudo
Tão sereno por fora!
E por dentro da Hora
O Enigma sempre mudo
Com que a alma descora!

30 - 11 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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