Traz o jornal que ontem morreste.
Sobre os joelhos o deponho
E numa náusea em que estou triste
Entristeço, relembro, sonho.

As longas noites rememoro
De vãs conversas e ocioso estudo,
E, com minha alma, opresso, choro
O nada temporal de tudo.

Custa a crer que não hajas. Vai
Pôr-se entre nós o grande muro
Que com a porta onde se sai
Existe a fazer tudo escuro.

E estes versos são o disfarce
Do egoísmo que me humano faz.
Rimo a dor de que tudo passe,
Sorrio. Já te esqueci, rapaz.

Mas ah, conheço claro em mim!
Não é a ti que choro, nem
A sorte abstracta que fez fim:
Mas que eu hei-de morrer também.

É medo o que me faz sentir,
É a saudade de quem sou
Que como um farol vem luzir
Na morte para onde vou.

12 - 2 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar