PROSSEGUINDO A PASSADA, A D. ANTNIO DE NORONHA.


A quem darei queixumes namorados
do meu pastor queixoso namorado:
a branda voz, suspiros magoados,
a causa por que na alma magoado?
De quem sero seus males consolados?
Quem lhe far devido gasalhado?
Por partes mil lanando a fantasia,
busquei na terra estrela que guiasse.

S vs, Senhor, fermoso e excelente,
especial em graas entre a gente
meus rudos versos; em cuja companhia
a santa piadade sempre andasse,
luzente e clara, como a luz do dia,
que o rude engenho meu me alumiasse;
em vossas perfeies, gro Senhor, vejo,
cumprido inda alm o meu desejo.

A vs se dem, a quem junto se h dado
brandura, mansido, engenho e arte,
dum esprito divino acompanhado,
dos sobre-humanos um em toda a parte.
Em vs as graas todas se ho juntado;
de vs em outras partes se reparte;
sois claro raio, sois ardente chama,
glria e louvor do tempo, asas da fama.

Enquanto aparelho um novo esprito,
e voz de cisne tal que o mundo espante,
com que de vs, senhor, em alto grito
louvores mil em toda a parte cante,
ouvi o canto agreste em tronco escrito,
entre vacas e gado petulante;
que, quando tempo for, em melhor modo
por vs me ouvir o mundo todo.

As vs querelas, brandas e amorosas,
sejam de vs tratadas brandamente;
verdades d'alma pouco venturosas,
sadas com suspiro vivo e ardente,
que em vossas mos se entregam valerosas,
para despois viverem entre a gente,
chorando sempre a antiga crueldade,
e os coraes moverem a piadade.

J declinava o sol contra o Oriente,
e o mais do dia j era passado,
quando o pastor, co grave mal que sente,
por dar alvio em parte a seu cuidado,
se queixa da pastora docemente,
cuidando de ningum ser escutado.
Eu, que o ouvi dũa rvore, escrevia
as mgoas que cantou; e assi dizia:

«Ou tu do monte Pndaso s nascida,
ou mrmore te pariu, fermosa e dura:
que no pode ser seja concebida
dureza tal de humana criatura;
ou s quiais em pedra convertida,
ou tens de natureza tal ventura;
porm no fez em ti boa impresso
tomar-te s de mrmore o corao.

J esta minha voz rouca e chorosa
a gente mais remota moveria,
e se tocasse a veia lacrimosa
os tigres em Hircnia amansaria.
Se no foras cruel, quando fermosa,
meu longo suspirar te abrandaria;
mas suspirar por ti e bem querer-te
que fazem, seno mais endurecer-te?

Se deixaras vencer a crueldade
de tua to perfeita fermosura,
um pouco viras bem minha vontade,
e viras esta f to limpa e pura,
porventura que houveras piadade
e tivera eu quiais melhor ventura.
Mas nunca achei melhor tua beleza,
seno com ver-se em ti tua dureza.

J um peito abrandara que no sente
meu duro e grave mal, segundo forte;
se decera ao inferno fero e ardente
movera a piadade a mesma morte.
Se ũa gota de gua brandamente
abranda um penedo duro e forte,
como lgrimas tantas no faro
um pequeno sinal num corao?

Na testa tenho ũa fonte viva d' gua,
que por meus olhos tristes se derrame;
no peito est de fogo na viva frgoa,
que tudo em si converte e tudo inflama;
Amor, ao derredor, por maior mgoa,
voando, mais acende a ardente chama.
E, se qus ver se ardentes so seus tiros,
olha se so ardentes meus suspiros.

Quando rumor algum grande se sente,
que se acende fogo em casa, ou torre,
de pura compaixo vai toda a gente
gritando: «gua ao fogo!” »e cada um corre;
assi anda meu peito em chama ardente,
e coa gua dos olhos se socorre;
que quem me abrasa outra gua me defende,
porque com esta o fogo mais se acende.

Quando o sol sai l no Oriente
o seu antigo curso comeando,
fermoso, intenso, puro e refulgente,
o monte, campo, mar, tudo alegrando;
quando de ns se esconde no ponente,
e noutras terras sai, alumiando;
sempre, enquanto d ao mundo giro,
por ti meus olhos choram e eu suspiro.

Caminha o dia todo o caminhante,
vem, acabado, a noite em que descansa;
trabalha na tormenta o mareante,
goza o dia sereno e de bonana;
recobra o ano frtil e abundante
na terra o lavrador, se nela cansa:
mas eu, de meu trabalho e mal to forte,
tormento espero, enfim, e crua morte.

Co ouvir meu mal, as rosas matutinas,
de d de mim, se cerram e emurchecem;
co meu suspiro ardente, as cores finas
perdem o cravo e lrio, e no florecem.
Coa roxa aurora, as plidas boninas,
em vez de se alegrarem, se entristecem;
deixa seu canto Progne e Filomena;
que mais lhe di que a sua a minha pena.

Responde o monte cncavo a meus ais,
e tu, como spide, cerras-lhe o ouvido;
as rvores do campo, os animais,
mostram sentir meu mal sem ter sentido;
e a ti, as minhas dores desiguais
no movem esse peito endurecido.
Por mais e mais que chamo, no respondes,
e quanto mais te busco, mais te escondes.

Naquela parte adonde costumavas
apacentar teus olhos e teu gado,
ali, onde mil vezes me mostravas
ser eu de ti o pasto desejado,
mil vezes te busquei por ver se davas
ainda algum descanso a meu cuidado.
No campo em vo te busco, e busco o monte,
qual o ferido cervo busca a fonte.

Este lugar de ti desamparado,
com cujas sombras frias j folgaste,
agora triste e escuro e j tornado;
que todo o bem contigo nos levaste.
Tu eras nosso sol mais desejado;
no temos luz despois que nos deixaste.
Toma, meu claro sol! Vem j, meu bem!
Qual o Josu que te detm?

Despois que deste vale te apartaste,
no pace o branco gado, com secura;
secou-se o campo ds que lhe negaste
dos teus fermosos olhos a luz pura;
secou-se a fonte donde j te olhaste,
quando melhor que agora, spera e dura.
Nega, sem ti, a terra dando gritos,
pasto s cabras e leite aos cabritos.

Sem ti, doce cruel minha inimiga,
a clara luz escura me parece;
este ribeiro, quando Amor me obriga,
com meu chorar por ti contino crece.
No h fera que a fome no persiga,
nem o campo sem ti j no florece;
cegos esto meus olhos, j no vem,
pois que no podem ver meu claro bem.

O campo, como de antes, no se esmalta
de bobinas azuis, brancas, vermelhas;
no chove ao pasto j, que h de gua falta;
as mansas e pacficas ovelhas
sem ti perecem e o Cu tambm lhes falta;
no acham flor as melfluas abelhas;
com lgrimas que manam dos meus olhos
produze a terra j speros abrolhos.

Torna pois j, pastora, a este prado,
e restituirs esta alegria;
alegrars o monte, o campo, o gado,
alegrars tambm a fonte fria.
Torna, vem j, meu sol to desejado,
faze esta noite escura em claro dia;
e alegra j esta magoada vida,
toda em tua ausncia consumida.

Vem, como quando o raio eminente
do nosso horizonte que, escondido,
deixa um certo temor mortal gente,
que causa ver o orbe escurecido;
e quando torna a vir, claro e luzente,
alegra o mundo todo entristecido.
Assi para mim tua luz pura
claro sol; e, ausente, noite escura.

Tu, esquecida j do bem passado e
e do primeiro amor que me mostraste,
teu corao de mim tens apartado,
e o lugar tambm desamparaste.
No te quero eu a ti mais que a meu gado?
No sou eu mesmo aquele que tu amaste?
Pois onde mereci to gro desvio?
Ouve-me, pois me vs j morto e frio.

Bem vs que por Amor se move tudo,
e no h quem de Amor se veja isento:
o animal mais simples, baixo e rudo;
o de mais levantado pensamento;
at debaixo de gua o peixe mudo,
l tem d'Amor tambm seu movimento;
a ave, que no ar cantando voa
e tambm por outra ave se afeioa.

A msica do leve passarinho,
que sem concerto algum solta e derrama,
saltando de raminho em raminho,
cantando com amor suspira e chama,
't achar no amado e doce ninho
aquele a quem busca e a quem ama,
descansa do trabalho que tomara
tendo se seu descanso em quem achara.

A fera que mais fera, e o leo
sempre acha outro leo, e outra fera,
em que possa empregar ũa afeio
que lhe a conversao no peito gera;
tambm sabe sentir sua paixo,
tambm suspira, morre e desespera,
acena, salta, brada, ferve e geme
e, no temendo nada; Amor s teme.

O cervo que, escondido e emboscado,
temendo o cobioso caador,
est na selva, monte, bosque ou prado,
ali onde est e vive, vive amor.
De amor e de temor acompanhado,
com justa causa, amor tem e temor:
temor de quem ali feri-lo vinha;
e amor a quem j ferido o tinha.

Se o animal insensvel, que no sente,
tambm sente de amor a frecha dura,
porque te no abranda o fogo ardente,
que procede de tua fermosura?
Porque escondes a luz do sol a gente,
que nesses olhos trazes, bela e pura,
mais bela, mais suave e mais fermosa
que o lrio, o jasmim, o cravo, a rosa?

Pode ser, se me viras, que sentiras
ver desfazer um peito em triste pranto;
e bem pouco fizeras, se me viras,
j que eu s por te ver, suspiro tanto.
As mgoas e suspiros que me ouviras
te puderam mover a grande espanto,
a dor, a piadade, a sentimento;
e mais, que para mim meu tormento.

Os pensamentos vos, que o vento leve;
o suspirar em vo tambm ao vento;
o esperar a calma, a chuva, a neve,
e no te poder ver em s momento,
tormento que somente a ti se deve.
E se pode inda haver maior tormento,
quem te viu e se v de si ausente,
muito mais passar mais levemente.

Faz nossa a pedra dura em sua dureza
coa gua que lhe toca brandamente;
abranda o ferro forte a fortaleza,
se lhe toca tambm o fogo ardente;
s em ti no conheo a natureza,
que a ser de pedra, ferro, ou de serpente,
j teu peito cruel fora desfeito
do fogo e das lgrimas que deito.

Quando a fermosa Aurora mostra a fronte,
alegra toda a terra, vendo o dia;
quando Febo aparece no horizonte,
manifesta tambm grande alegria;
contente como o gado ao p do monte,
alegre vai beber a fonte fria.
Tudo contente est, alegre tudo;
eu s, s, pensativo, triste e mudo.

Se da alma e do corpo tens a palma,
e do corpo sem alma no tens d,
h d do corpo s, que est sem alma,
pois sem alma no vive o corpo s.
Na chama, no ardor, no fogo e calma,
na afeio, no querer eu sou um s;
no achars vontade mais cativa;
nem outra como a tua to esquiva.

Se te apartas por no ouvir meu rogo,
onde estiveres te hei-de importunar;
posto que v por gua, ferro ou fogo,
contigo em toda a parte me hs-de achar;
que a chama que me abrasa de tal fogo
que, enquanto eu vivo for, h-de durar;
e o n que me tem preso de tal sorte
que no se h-de soltar em vida ou morte.

Neste meu corao sempre estars
enquanto a alma estiver com ele unida;
meu sprito tambm possuirs,
despois que a alma do corpo for partida;
por mais e mais que faas, no fars
que no te ame nesta e na outra vida.
Impossvel ser que, eternamente,
ests de mim ausente, estando ausente.

C me acompanhar tua memria,
se o rio que se diz do esquecimento
da minha no borrar to longa histria,
to grave mal, to duro apartamento.
At que eu te veja entrar na glria
viverei num contino sentimento;
inda ento ser — se isto ser possa —
servir esta alma minha l a vossa».

Aqui, com grave dor, com triste acento,
deu o triste pastor fim a seu canto;
co rosto baixo, e alto o pensamento,
seus olhos comearam novo pranto;
mil vezes fez parar no ar o vento
e apiadou no Cu o coro santo;
as circunstantes selvas se abaixaram
de d das tristes mgoas que escutaram.

Com ũa mo na face, e encostado,
em sua dor to enlevado estava
que, como em grave sono sepultado,
no viu o sol que j no mar entrava.
Berrando anda em roda o manso gado,
que o seguro curral j desejava;
nas covas as raposas, e em seus ninhos
se recolhem os simples passarinhos.

J sobre um seco ramo estava posto
o mocho co funesto e triste pranto,
a cujo som o pastor ergueu o rosto
e viu a terra envolta em negro manto.
Quebrando ento o fio a seu gosto,
mas no quebrando o fio a seu pranto,
para melhor cuidar em seu cuidado,
levou para os currais o manso gado.

Luís Vaz de Camões
[A QUEM DAREI QUEIXUMES NAMORADOS]
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