Nos tanques verdes por cima
Quando uma brisa se espanta,
O mole ervor não se anima.
‘Stagna, e só entre ilha e ilha
Um refego se alevanta,
E um bocado de água brilha.

E eu, que não penso a olhar,
Sinto desprender-se em mim
O que no tanque a estagnar
Não conseguiu ser vibrado.
Depois chega o breve fim
Da brisa e do meu agrado.
 
E os olhos que ergo da água
Guardam um vago torpor
Ou de sentir sem ter mágoa,
Ou de ver sem conseguir,
E o sol doira a água em bolor
Sem que eu tenha que o sentir.
 

14 - 2 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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