Por cima das revoltas, das cobiças,
Da incerteza da vida e do escarcéu
De inúteis e constantes injustiças,
O mesmo sol doura no mesmo céu.

Imperturbavelmente, enquanto as gentes
Da terra turvam sua própria vida,
Resultam os arbustos das sementes
Numa continuidade indefinida.

Ah, lição que, a podermos aprendê-la
Mais do que com a mente, com o instinto!,
Atravessara, qual longínqua vela
O mar do nosso anseio ermo e indistinto.

Sejamos calmos como a Natureza,
Um pouco indiferentes e fugazes,
Ófãos já da ilusão e da surpresa,
Viúvos do sonho das humanas pazes,

E, abandonando o rio das paixões,
Salvos enfim, na margem concedamos
Aos Deuses sacrifício, e às ilusões
O esquecimento que ao passado damos.

Lembrar!‘Sperar! Ter fé e confiança!
É sempre a mesma inútil ilusão.
As folhas aos meus pés em branda dança
Falam do vento e as vagas sombras vão

Alongando-se pela terra fora,
Cúmplices exteriores deste vago
Anseio porque a vida nunca fora
Que morre em mim com o tremer de um lago.

21 - 12 - 1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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