I. O RABEQUISTA MÁGICO

Não foi da estrada do norte,
Nem do sulem qualquer via,
Que a aldeia primeiro ouviu
Sua louca melodia.

Ele apareceu no caminho,
O povo veio p’ra escutar;
Súbito se foi e em vão
Seus desejos dele voltar.

Em ânsias de liberdade
Seu tocar estranho fervia.
Canção aquilo não era,
Mas uma certa melodia.

Em qualquer lugar já longe
Ele, algures, fora dali,
Tendo que viver a vida,
Sentiam-lhe o eco em si.

Foi resposta àquele anseio
Que no seu peito guardavam,
Tendo o sentido olvidado
Do que, perdido, buscavam.

A esposa feliz já sabia
Mal casada agora estar,
No terno amante crescia
Cansaço de ainda amar;

Alegres, moça e rapaz,
De apenas terem sonhado;
Coração triste se via
Menos só e abandonado.

Nas almas nasceu a flor
Que da terra não tem pó:
A companhia da alma
Que com ela faz um só;

Sombra e beijo abençoado
De ignoto abismo surgido;
Brilhante desassossego,
Melhor que paz acolhido.

Tal como veio, ele se foi.
Só por meio-ser o sentiram.
Depois, silêncio e memória,
Com ele se diluíram.

Sono deu lugar ao riso,
Esp’rança anelante cessou
E, pouco tempo depois,
Não lembravam que ele passou.

Só quando as penas da vida
A fazem não desejada,
Regressa o tempo dos sonhos
Sentindo a vida gelada.

Cada um se lembra então —
Como a lua que se avista,
Onde arde a vida sonhada —
Da canção do rabequista.


A ILHA

Chorai viola e violino,
Fagote e flauta encantada.
Vede, a ilha de feitiços
Presa à lua, enluarada!
Meus pés a roçam em sonhos,
Entre sombras e luar.
Pudesse a alma roçá-la,
Não apenas meu sonhar!

Flauta, viola, violino.
Olhai a ilha pairando!
Por ela, mudo, vagueio
Liberto de estar penando.
O ar onde ela flutua
É luz, que da lua evola.
Seus trilhos são cada nota
Do fagote e da viola.

Mas será aquela ilha,
Como as nossas, tão real?
Flauta, viola, fagote
Abrem em som um portal,
A mostrar algo ou algures
Ao que em mim olha atraído
P’la rara ilha oscilante
Num mar, de lua tecido?

Talvez mais vera que as nossas.
Serão estas de verdade?
Naquela as horas não contam
Nem o tempo é realidade,
Pois tem verdade e raiz
Algures, da lua domínio,
E esvai-se no som da flauta,
Do fagote e violino.


LICANTROPIA
 
Algures os sonhos são verdade.
Existe um lago abandonado
P’ra nós dois, à luz da lua,
Como nenhum p’ra nós fadado.

Lá se abre a negra, branca vela
Às brisas vagas, pressentidas,
P’ra levar a nossa vida-sono
Até onde as águas reunidas,

Onde bosques ignotos cumprem
Na costa, escura de arvoredo,
O voto do lago, de ser mais,
E tornam o sonho completo.

Lá nos esconderemos e
Ao luar, de tudo despojados
E vazios, sentiremos que
De algo musical fomos forjados.


ENCANTAMENTO

Da berma, ao luar, dos sonhos
Ergo a ti a mão cansada,
Tu, levado por rios outros
Dos que vistos e pensados!
Ó aureolado do espírito!
Ó espiritualmente velado!

Meu sonho e pensar depõem
A teus pés o seu estandarte.
Ó anjo tarde nascido
Para o caído encontrar!
Que novo estado sensual
P’ra nossas vidas ligar?

Que nova emoção sonhar
Para meu ter-te sabido?
Que pureza de prazer?
Ó vinhedo entretecido
Em redor de querido crer!
Ó vinho em sonhos premido!


A DANÇA DOS DUENDES

Primeiro apenas a lua
E a floresta escurecida
Na lagoa enluarada
De brisa ou vento esquecida.

Depois, algo se moveu
Onde o silêncio lunar
Pisava branco, inaudível,
Em vago turbilhonar.

Lentos, leves e sozinhos
Além dos olhos, do ver,
Algures e quase invisíveis
Dançavam a seu prazer.

Sua leveza envolvia
Em angústia o coração,
Um medo feito fantasma
Ilusório e sem razão.

E o coração recordava
Tempos de ante-amor e lar,
Vivos em raras memórias
Que esta dança veio lembrar.

Desejo breve do vago,
Sentido solto de ser,
Algo de lua na alma,
Algo de fadas no querer.

Deslizando aéreos, leves,
Em luz e sombra esfumados,
Espreitavam, se escondiam,
Aqui e além misturados.

Dançavam de cá p’ra lá,
Presos a nenhum lugar.
Uma flauta, qual suspiro,
Acompanhava o dançar.

Lá, no silêncio caído
Como uma coisa no chão,
Ora rodavam, paravam,
Ora em nova rotação.

Até que nas voltas lentas
O ar frio mais frio ficou.
O luar, luar apenas,
E ali nada se passou.


SONHO

Era um lugar recolhido,
Todo silêncio e luar.
Tudo como uma laguna.
O cuidar nem lá sabido,
Só do vento o desmaiar.

Entre sonhada e terrena,
Paisagem de entre-visão!
Dormia o vento na brisa.
De algas plena era a água
Onde púnhamos a mão.

Nossa mão a vaguear
Dentro da água encoberta.
Nossos olhos cintilantes
Do brilho dum raio lunar
No cenário da floresta.

Ali perdemos o espírito
Da nossa própria existência.
Sermos livres como as fadas,
Nada tendo para herdar
Mais do que a nossa vivência!

Fadas, elfos luminosos,
Rastos de lua a mover.
Lá ganharemos um instante
Todos os eus enganosos
Que nunca podemos ter.


LONGE DE MIM

Tremo e empalideço.
Do luar qual o poder,
A cintilar sob o rio,
Que me traz pena e prazer?

Que feitiço tem a lua
Que deixa a alma vencida?
Fala-me que desfaleço!
Perco o domínio da vida!

Mesmo em mim, onde me sinto,
Sou um espírito distante.
Ó rio, sereno de mais
P’ra que sejas repousante!

ó dor vaga de viver!
Mágoa de algo que não sei!
Dor-lunar que faz sentir
Que inutilmente sou rei.

Rei-mudo, em mágico reino,
Em terra erma e lunar!
Dor da flauta a extinguir-se
Quando devia tocar!


II. O LAGO ESPELHADO


NOUTRO LUGAR


Criança, vamos partir,
Partir p’ra Outro Lugar.
Lá, os dias são suaves
E os campos sempre a brilhar.

Lá, a lua brilha sobre
Quem vagueia em felicidade.
Fia sua luz e sombra
Teceu de imortalidade.

Lá, ver coisas é ser jovem,
Novos os contos contados,
Lá, sonhos reais se cantam
De lábios por nós olhados.

Lá o tempo é alegria,
Vida é sede saciada,
Amor é como o do beijo
Da boca primeiro beijada.

Nada de barcos, criança,
Só nossa esp’rança a remar,
Inda fresca a fantasia.
Busquemos Outro Lugar!


O LAGO ESPELHADO


Vai: tu nada tens a perdoar.
Melhor do que viver é sonhar.

Mas só verá o sol a nascer
Quem todo o trabalho abandonar;
Quem, como trocando a máscara,
Se perca da missão de pensar.

Só esse vagueará pelos vales
Mais verdes que os que viu brilhar
Através dos contos da infância,
Esse, que o mundo for repensar.

Só àquele que canta sentado
Nas pedras, esquecendo a estrada,
As flores das fadas desabrocham
E abre as asas a ave encantada.

Não achará mão que alimente
As mudas fontes do desejar.
Ninguém lhe apontará o regato
Que a sede de infância vá saciar.

Mas vales mais verdes que o Hoje
E pensar mais caro que a Distância
Lhe baterão à porta, a despertar
Para outras sedes a sua ânsia.

Assim como a imóvel costureira
Sentada à janela, ao sol poente,
Duma aldeia que ninguém pisou,
Nada de mal que o atormente;

Mas incorpórea como um desejo,
Qual arco-íris, a alma cruzará
Os perdidos prados verde-chuva
E a terra em palavras florirá.

 

O POEMA


Um poema dorme em meu pensamento,
Capaz de expressar minha alma inteira.
Vago eu o sinto, como som ou vento,
Mas já talhado em forma derradeira.

Nem estância ou verso ou palavra tem.
Tal como o sonho ele não tem lugar.
Um mero senti-lo, que difuso vem,
Como névoa feliz cercando o pensar.

Neste mistério noite e dia assim
Eu o sonho, o leio e o soletro,
À beira das palavras sempre em mim
Parece pairar vago e completo.

Sei bem que ele nunca será escrito.
Também sei que não sei o que ele é.
Mas só de sonhá-lo, feliz já fico,
E ventura é ventura, falsa até.

 

OLHANDO O TEJO


Rebanhos além monte ela guardava,
Seu canto me vem no vento trazido,
E uma ânsia pela sua mágoa
Enche o que em mim é indefinido

Lagos de espírito murados de rochas
Dormem no vazio da sua toada.
A sua nudez ali se demora
A reflectir na sombra salpicada.

Mas o que há de real em tudo isto
É minha alma, a tarde, o cais somente
E, como sombra dos meus sonhos disto,
A dor em mim de nova dor se sente.


Se eu pudesse em madeira meus versos fazer,
Os meninos os podiam então entender,

Tão rente ao sentido que tudo em Deus tem
Estão meus poemas e as crianças também.

Que um menino sabe que senso e razão
Só encobrem nada e o nada são,

E a criança possui, divina, a clareza
De que tudo é brinquedo e tudo é beleza.

Que um dedal, uma pedra, carrinho de linhas,
São coisas que podem sentir-se divinas,

E que, se destas coisas homens criamos,
Homens é que são, não imaginamos.

Por isso eu queria meus versos tirar
De simples ideias e as representar
 
Em gravuras, formas, desenhos p’ra ver,
Coisas que meus versos pudessem parecer.

Poeta das crianças então viria a ser.
Embora talvez não o chegasse a saber

Com o senso exterior que faz triste a vida,
Em rostos inocentes alegre sentida

Deus daria à alma o senso perdido
Do saber de outrora, de prémio merecido —

O sentir das crianças, mais ainda, ao ver
Representar meus versos de livre querer,

Sentados no chão, brinquedos brincando,
O mundo visível levemente errando.

 

ANSIEDADE


Sonho, e estranhos poderes difusos
Ajudam ao meu sonho iluminado;
Um som como o de chuva iminente
Rasteja ao meu encontro, alto silvando;
E eis que todas as horas esquecidas
Me cercam como uma névoa envolvente.

Os fantasmas de meus perdidos eus
Tecem à minha volta falsa malha;
Vagos elfos, meus sonhos insonhados,
Fazem parte agora da minha carne;
E todo eu sou arquivos de sonhos
De não-ser, de mim distanciados.

Posso tocar as coisas impalpáveis,
Sinto-me ao sol de passados dias;
Sons remotos, como asas a voar,
Rodeiam o cego andar do espírito;
E do outro lado da grande colina
Um sino toca e chama p’ra rezar.

Mas eu estou cansado de sonhar,
Cansado de ser eu mesmo sempre
Sobre espaços desertos de parecer,
Jogador involuntário dum jogo
Com a vida, astro distante a brilhar
Em terras mortas, sem um nome ter.


Sonhos loucos de outra coisa qualquer!
Doidos por largar
(Ó vaga em mim a encher!)
Da vida, onde ela tem de ficar —
Vida onde o hoje é sempre estar!

Outra coisa qualquer, outro lugar!
Não uma vida! Não esta vida!
Ah, ser vento, asa a voar,
Uma nau p’ra me levar!

Para onde? Se o soubera,
Ir, por certo, não quisera.

 


III. A ESCOLHA ERRADA

 

NOCTURNO


Ama, sei agora
Que é vão o amar.
Quando era criança
Usavas cantar
E afagar-me a testa
Prà dor acalmar.
Traz essa cantiga
Ao meu recordar.

Desejo sentir
De novo o menino
Que tu embalavas
Cantando baixinho,
Tão baixo era o canto
Que enganava a vida
E então eu chorava
De vê-la perdida.

Ama, junto ao leito,
Outra vez me canta
Aquela cantiga
Que ainda me encanta.
Coração sangrou,
Prazer fez-se pranto.
Canta docemente
A testa afagando.
 
Ó lugares perdidos
Em sono e sonhar!
Ó contos de fadas
Mesmo por contar,
Mas que apareciam
Das ondas do canto,
Surgindo do fundo
E plenos de encanto!

Canta como se
Ouvindo estivesses.
Canta como se eu
Mundo não houvesse
Que esta noite inteira
Para te escutar,
Enquanto em meu peito
Ondeia o respirar.

Por que vivi mais
Que o tempo que tinhas
Para me cantar
Talvez de rainhas
Que o sonho acredita
Ou de aromas perdidos
Que sobem das flores
Pelos meus sentidos?

Por que perdi eu
O que não tivera
Mas noite, tua voz
Em minha alma era?
Por que escolhi eu
Vida, amor, pensar,
Numa escolha errada
De falso acertar?

Ó ama, me embala
E ao meu coração.
Canta até que sinta
Menos solidão,
E o viver funesto
Suma indefinido,
Libertando os sonhos,
No Desconhecido.

Tu já não és mais
A ama a cantar;
A infância perdida
Vim recuperar.
Não: tu és a hora
Do sono que traz
A cena não-cena,
A dor que é dor-paz.

Sombria e materna,
Noite abençoada,
Em que a minha alma
É já visitada,
Lá na oca margem
Desse meu prazer
E da pobre oferta
De andar e sofrer;

Imerso na treva
Do adormecer
Em paz mergulhado,
Paz de nada ser;
Uma nau sombria
Só, sem navegar,
Liberto sentir
Do ser e pensar.

 

CANÇÃO DE EMBALAR


Meu coração é dor a preguiçar
Enquanto uma velha canção inglesa
Emerge da névoa do meu pensar.

O rei que mama em meu peito
No meu colo está deitado;
Seu amor é minha vida,
Meu sentir ‘stá repousado.
Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Quando acabares de mamar
Descansa, amor, sobre mim;
Possa tua mãe e ama
Ser também teu berço assim.
Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Receio que isto não seja
Tudo o que dar te devesse,
Pois queria ser p’ra ti
Só o melhor que pudesse.
Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Mas como sou, como posso,
Tua devo e quero ser,
Condescendendo em seres meu,
Pequena p’ra te merecer.
Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Por bem daria do cantar o jeito
Para ser o inglesinho distante
Para quem este cantar foi feito.

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Felicidade deve ter havido
Junto de quem a canção foi cantada,
Mãos agarrando, da mãe, o vestido.

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Ai que tristeza me vem visitar
Sabendo que sinto tamanha amargura
Enquanto o menino teve este cantar!

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Dói-me o coração até eu chorar.
Imaginar esta canção cantada
E a criança sorrindo a sonhar!

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Menino já fui, mas queria ser esta
Criança de agora, ouvindo a canção
Num doce murmúrio sobre a sua testa

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!
 
Oh, que esse tempo pudesse voltar,
O tempo feliz que nunca foi meu
E que eu vivo só para lamentar!

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Sim, velha voz, em minha alma canta
Tão maternal e fazendo dormir
O menino que, calmo, se encanta.

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Canta e não deixes meu peito chorar
Porque um dia uma criança teve
Esta canção para o sono embalar!

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Algures, não sei como, ouvi este canto
E eu era parte da felicidade
Que vã vivia no seu soar brando.

Canta, canta meu menino,
Tu que alegras meu destino!

Algures, não sei como, fui esse menino
E o meu coração, feliz, dormitava.
Agora — ignoto e triste destino!

 


PRECE

 

Senhora do Pranto Vão,
Meu peito é teu santuário.
De anos fartos já cansei,
De acre vinho embriagado,
De ter só penas e medos
E ansiar, que mais não sei.

Rezar-te de nada vale,
Cheio de dor o coração.
Teu olhar seria esp’rança,
Mesmo um olhar de desdém.
Concede que eu volte a ser,
Como teu filho, criança.

O meu sentir-me é só choro.
De meu peito tenho pena.
Teu manto p’ra me agarrar!
Um berço para meus medos!
Vivesses perto de nós,
Tua mão p’ra nos tocar!

Eu não sei como rezar.
Meu peito é pano rasgado.
Cinza ficou meu cabelo.
Ensina-me a te chamar
P’lo teu nome, noite e dia,
Como se tudo, o dizê-lo.

A fé de meus pais se ergue
Em minha voz, triste a hora.
Te rezo rosários de dor
Com meus olhos. Oh, minh’alma
Dota de doces mentiras,
Por teu filho sofredor!
 
Esqueci o sabor da fé
E procuro a oração.
Meu coração é jardim
Devastado. Oh, como mãe
Pousa a mão em minha fronte.
Que eu morra com ela em mim!

 

 

IMPRESSÕES DE VERÃO


 I


Azul é o céu,
Relva em verde cor.
Meus olhos cobiçam
A cena exterior.

Coração pudesse
Isso partilhar
E sentir sem mágoa
A vida a voar!

Um lar eu não tenho
E horas sem tormento.
Entrai, doces brisas,
No meu pensamento!

Grande rio tão calmo,
Certo na descida,
Ensina a correr
Como tu, p’la vida!

Não tenho sossego.
Minhas flores murcharam.
Que foi dos anseios
Que meu querer deixaram?

Mesmo o que desejo
Deixei de buscar.
Coração é rico,
Pobre o meu amar.

Ó dia dourado,
Em mim vem entrar!
Faz raiar minh’alma
Com sol a brilhar!

Que eu não seja mais
Que a vidraça apenas
Que, claro, atravessas
Num morno sem-penas.

Desmaio e estremeço
Com a vida a chegar.
Ó rio que passas,
Onde é o meu lar?

Ó horas alegres
Que vestem o prado,
Frescos aguaceiros!
Eu desesperado!

Claros horizontes!
Alegres outeiros!
Que dor aprisiona
Meus firmes desejos?

O que fica entre
O que sou e mim?
O que era preciso
P’ra não ser assim?
 
Minha vida nunca
Diferente ha-de ser
Da praia deserta
Com o mar a bater.

Que fado ou poder
De negro tormento
Faz da hora feliz
Amargo momento?

Dai-me algum sossego!
Concedei-me um lar,
Esperança, um ninho
P’ra não mais deixar!

Algures na vida
Por certo haverá
Algo meu, sem luta,
Que me aguardará.

Lá, alegre dia,
Conduz o meu ir!
Coração se ajuste
A ver-te partir!

Desperta-me a esp’rança,
Mesmo que ilusão.
Minh’alma tacteia
Nos muros da prisão.

Murmúrio da água,
Do verão esposa qu’rida —
Por que fiz de sonhos
Esta minha vida?

 

II


O sol resplandece.
Voam passarinhos.
Na relva se traça
O ir dos caminhos.

Longe da tristeza
E dos meus cuidados,
Assim atravesso
Indo pelos prados.

Esp’rança não há.
Nada p’ra buscar
E, também agora,
Nada a recear.

Nada: a verde terra
E o céu para ver;
E um espanto vago
De nascido haver.

Isto e minha alma,
Só isto e mais nada
E o sol cobrindo
Este tudo-nada.

Sinto-me de novo
O menino que era,
Sem ter mais pesar
Do que a própria erva.

Vivendo uma vida
Livre de amanhã,
Assim esqueço a luta
E a tristeza vã.

Quais eram as formas
Da esp’rança e do medo?
No fundo da encosta
Uvas no vinhedo.

Real esta hora
Não perdurará,
Mas porque eu a vivo
Ela durará.

Deixai as clareiras
E o céu de azul feito
Como sombras de alma
Entrar em meu peito,

Até que me torne
Um nada que passa,
Já que lar não tenho;
Um sopro, uma asa,

Uma vaga parte
Do próprio momento,
Fora do ser-mais
Que faz meu tormento.

Murmúrios que vêm
Do dia saídos,
De longe e de perto
Chilreios e zumbidos,

Fazei-me uma parte
Daquilo que sois;
Meu peito vazai
E levai-o depois.

Que minh’alma seja
Um pó a lançar
Na canção do vento,
Na taça do mar!

Perdida e difusa,
AÍ feita em nada,
Liberta de mim
Não mais ensombrada,

Esta hora passa
Como tudo, eu sei;
Mas enquanto foi
A mente arejei.

Cerraram-se os olhos
Numa paz final,
Solto do pensar
Fiquei, desse mal.

Assim eu descanse,
Agora, a julgar
Que a vida é melhor,
Quase que um sonhar.

Esta hora quente
É algo difuso,
Pois eu vejo isto
Com olhar confuso.

Só no abandono
De escuro momento
Eu vivo na berma
Do meu pensamento,

E uma folha de erva
Ora é meu pensar,
Que nem sequer sente
A hora a passar.

 


III

 

Um vento brando já sopra
Além do calor do dia.
Possa à alma perdoar
Seus sonhos! Ah, eu pedia

Que esta hora refrescante
Na mente se vá prender
E possa daqui a anos
Em mim, de novo, viver!

Isto é pouco, bem o sei,
Mas é já felicidade,
Pois poucas horas podemos
Abençoar, na verdade.

Há horas assim, libertas
Da prisão do pensamento,
Quando não há que cuidar
Salvo o nada que é o vento.

Deixem-me inspirar, assim,
E na memória gravar
A hora, p’ra repeti-la
Sempre que veja ficar

O peito, pesado e quente,
E o pensar tenso e tardado.
Ó brisa, sopra o pensar!
Ó calma, limpa meu fado!

 

VAZIO


O dia enfermo o lago adoece
Da palidez que em sua cor assoma.
A paisagem se esfuma, se escurece
E o horizonte carrega a sombra
Como uma vaga bandeira vencida,
Inutilidade da orla sem vida.

Que o meu coração abandone tudo.
Serei mais rico em todo o meu eu.
Cada sopro, cada asa ao passar
De mim me afasta. Inteiro o céu
Minha consciência vem minar
Diminuindo meu vero pesar.

Pois que minha tristeza não é ser
O dia triste e eu triste assim,
Mas que momento algum possa abater
A dor, só dor, que tenho em mim
Para ver, sentir e suportar,
Enquanto a vida, qual roda, a passar.

Não: coisas mais vagas que céus e planuras
Sobre mim, em sombras, estão a pairar;
Penas mais vazias são as amarguras
Que os desertos possam simbolizar;
E meu peso oco da vida e do ser
Só consigo mesmo se pode parecer.

 


MONOTONIA


Cada brasa sombreada
Humidade em si contém.
Desfaçamos o pensar
Até que o remorso vem.

O vento sopra mais frio
Na vidraça humedecida.
Corações mais velhos ficam
Buscando uma nova vida.

A noite dói. Cada brasa
Em rubro mais quente a arder!
Mas ai! Quando me recordo
Queria poder esquecer.

Que vagas, frias rajadas
P’la alma, qual porta, vão!
Minh’alma é o centro vivo
Dos sonhos que já não são.

Desperta mais cada brasa!
Faz o fogo aproximar!
Quando a memória é remorso
Que fácil é só lembrar!

Envolveu o vento húmido
O meu sentir solitário.
Meus olhos presos ao fogo,
Em meus lábios nome vago.

Atiça em vão cada brasa!
Toda a alma é só lamento;
Lamento p’lo que lembramos
E p’lo que é já esquecimento.

Ó sopro mais forte e frio,
Vento na luz que escurece!
Na campa do meu passado
Rosa vermelha floresce.

Trevas envolvem as brasas,
Ardendo sem as mexer.
Nossa vida é p’ra lembrar
E os desejos p’ra esquecer.

O mistério vem-me tocar
No ombro que estremeceu.
A rubra rosa está morta.
Morta agora como eu.

Pudesse esquecer, ó brasa,
Sem lamentar ou sofrer!
Ou lembrar pudesse ainda
Sem desejar esquecer!

 


IRMÃ CECÍLIA

 

Ai da Irmã Cecilia!
Por quem é tanta vigília?
De pés dormentes e joelhos feridos
E seus pálidos lábios apertados,
Nas preces da alvorada, olhos erguidos,
Nas preces da tarde, semi-cerrados.

Reza a Maria, Mãe e Rainha,
Que sempre foi e será ainda
Quem criança e moça livra do mal;
Nossa Senhora de olhar dorido,
Na cabeça uma auréola virginal
E do braço cônscio um lírio saído.

Pois da Virgem é contado
O ela ter já sangrado
P’las sete dores de seu filho sofrido
E por todos nós, como seus irmãos,
De cujas almas o fio é tecido
Da mesma lã branca, por celestes mãos.

Por isso de Cecília o rezar,
P’ra que todos possamos ficar
Purificados na eterna fonte
Onde todos os santos reunidos,
E nos seja dado alcançar o Monte
Resplandecente, mesmo de pés feridos.

E apesar de me não conhecer
Nem rezar por mim, oh, que possa ser
A sua prece pela humana dor
Também por mim, na sua oração;
E só porque ela reza com amor
Que vaga paz desça ao meu coração!
 

 


IV. QUATRO LAMENTOS

 

 

RIOS

Muitos rios correm, vão dar
No final a muitos mares.
Um é só o meu cuidar:
Em que rio eu poderia
Meu coração descansar?

Duas margens o rio tem.
Nenhuma p’ra vaguear
Ouvindo o rumor que vem
E vendo o rio a passar
Parecendo que se detém.

Um outro rio haverá,
Mas esse dentro de Mim.
Talvez possa encontrar lá
Meu Irmão de eternidade.
Em que Deus isto será?

ENTRETANTO

Longe daqui, muito longe,
Então bem longe daqui...
Já não se cuida do medo
Nem se persegue a alegria,
Então bem longe daqui.

Seus lábios pouco vermelhos,
Cabelo não muito louro.
As mãos com anéis brincavam.
Que eu tomasse não deixou
As mãos brincando com ouro.

Ela é já algo passado,
Longe de todo o pesar.
Nem prazer a toca ou esp’rança
Pode seu campo pisar,
Nem mesmo em vão o amar.

Talvez que num dia além
Das sombras e claridade,
Ela pense em mim e faça
Em mim a felicidade,
Longe da realidade.

 


EPISÓDIO


Seja o que for que sonhemos,
Todo o sonho é já verdade.
O que parece que vemos,
Deus o vê em realidade
E portanto isso é real
Como isto tudo, afinal.

Seja o que for que queiramos,
Num lugar existirá.
Agora e sempre aqui estamos
Ricos de algo que além está.
Dentro do nosso eu desperto
Deus por nós é descoberto.
 
Às vezes a esp’rança, penso,
Pode isto vero tornar;
Mas paro, procuro suspenso,
E vida, medo e pesar
É tudo o que resta em mim.
Para quê sofrer assim,

Esta angústia a estremecer
Com a possível alegria?
Toda a dor a preencher
A esp’rança até que sacia?
Porquê? Porquê tudo isso
Se tudo é tão impreciso?

Oh, concedei-me uma brisa
Que pelo prado se estenda,
E que me agrade essa brisa
Mesmo que eu a não entenda.
Pois é já toda a ansiedade
Desejo de felicidade.

 

NADA


Anjos vieram buscá-la.
Junto a mim a encontraram,
Onde as asas a trouxeram.
Os anjos longe a levaram.
Deixara o divino lar
P’ra vir comigo habitar.

Ela me amou porque amor
Só imperfeição quer amar.
Anjos vieram do alto
Para de mim a afastar.
De mim p’ra sempre a levaram
Entre asas de iuz, voaram.

Por certo era sua irmã
E como eles de Deus vinha.
Mas ela amava-me porque
Irmã meu peito não tinha.
Eles roubaram-na de mim
E tudo foi só assim.

 

 

 

V. JARDIM FEBRIL

 


Jardim Febril

I


Flocos rubros de neve demoníaca
O ar pecaminoso envenenando
Com flores rubras sem raízes doentias
Da Noite e do Além desabrochando

Relação que em si mesma é só aperto
Nas veias latejantes pelo ver
Que o excesso que assim sobrevive
Não é compatível com o ser

Contudo auréola-filtro ou só balada
Cantada em rito ao vício no altar
As papoilas da memória tecem teias
Em círculos três vezes a ansiar

Em torno do fálico eu erecto
A meio entre pensar e sentidos
Num vazio de névoa densa de impulsos
Que traz cônscio sangue aos lábios feridos


II

Ela deve a comunhão desprezada
Ao vício de manchar coisas sagradas
Fazendo das dores eucaristias
Se o cio acicata em doces asas

Pois sua boca rubra se enegrece
E dá lugar a perdidos ritos
Cortando ao coração ritmo e via
Levando a condenados infinitos

Até ao ponto em que o espasmo lança
Sobre a consciência como que um manto
O véu se rasga no templo devastado
E do Espaço reabrem as flores do canto

 


A JANELA QUEBRADA


Como um olhar meu coração é silente.
Existe um lar para além das colinas.
Como um olhar meu coração é silente.
Meu lar é ali, além das colinas.

Carrego o coração como velha praga.
Não há razão para lamentar.
Carrego o coração como velha praga.
Porquê interrogar ou lamentar?

Coração habita em mim como fantasma.
Minha esp’rança jaz morta além das colinas.
Coração vive comigo qual fantasma.
Além da esperança jazem as colinas.
 
Arrancaram meu coração como erva.
Não era verdade que eu devesse viver.
Arrancaram meu coração como erva.
Não podia achar verdade o viver.

Ora há grandes manchas no meu coração.
São como nódoas de sangue em soalho.
Ora há grandes manchas no meu coração.
E o meu coração jaz sobre o soalho.

A casa está fechada para sempre.
Enterrado vivo meu coração está.
Meu coração fechado já para sempre.
Enterrada viva toda a casa está.

 


ÍSIS


No fresco pórtico de pilares feito
Que dá alva entrada às suas virtudes,
Erguem-se belas em muda fileira
As estátuas de suas pulcritudes.

Doze elas são e a mente reúne
Suas vidas distintas num só sentir;
A décima terceira, que todas une,
Lhe exprime a alma e seu confluir.

Cinco estátuas referem cinco sentidos,
Sete são os mistérios de seu Pensar.
A décima terceira parece viver
Junto à sua vida, sem o notar.
 
O verão está fora das suas sombras,
Por entre seus salões a brisa vem;
E de suas janelas as clareiras
São algo que a alma inda retém.

Ergueu sua casa com celestes marcas
De construção ao seu íntimo ver.
O Sol reflecte os longos pilares
Sobre o chão duro e frio do seu ser.

Mas ela está ausente e em desespero,
As estátuas aguardam a Nova Hora,
E, vindo das sombras do seu ouvir,
O zumbido de zângãos já aflora.

Isto não teve ocasião nem modo.
Teve a frescura dos sonhos sonhados
Quando as brisas sobem pela nossa dor
E nós à beira de um lago deitados,

E um lago maior no longe aparece
Ao nosso renovado imaginar,
E todo o sentir do corpo desdenha
Nossa falha inata p’ra nadar ou voar.

Parei imóvel junto ao seu pórtico.
Rápidas e nítidas as sombras que vi.
Leve, como um beijo, veio a esperança,
E, qual andorinha, o Ter passou ali.
 

 

ENNUI


Sob um céu baixo, soturno e abatido
Por ventos solitários, em gemido,
Pálido, a luz do alto a ansiar
Até a alma da paisagem suspirar,
A suspirar para sempre,
Um rio negro, de calma visitado,
No meio de uma cidade atravessado,
Com íntimo receio corre tremente
Mais e mais próximo sempre,
Como fado sombrio sempre iminente.

Por essa paisagem, do sonho a surgir,
Numa verdade horrenda vai fulgir
Esse rio em si vazio, em si bisonho,
Que leva um sonho da emoção do sonho
Ao sonho da emoção —
Corre de um país que nos é ignoto
Para um mar possível e remoto;
E os que, angustiados, banham o olhar
Nele, tomam o sonho da emoção
Pela emoção de sonhar.

 

 


L'INCONNUE

 

Passa a tua mão
Pelo meu cabelo.
Olha nos meus olhos.
Um regato corre
Mesmo p’lo ardor
De abafada dor.

Pousa a tua mão
Sobre a minha fronte.
Que os olhos sorriam
Ao desassossego
Destes olhos meus,
Por momentos teus.

Ah, e não te esqueças,
Que esse tocar seja
Sentido por mim
Como um pensamento
Dele, leve e tal
À esperança igual.

Deixa a mão passar
Pelo meu cabelo
Durante um instante.
Fico sonolento
Mas sem consentir
Sentir-me sorrir.

Tudo já falhou.
Esp’ranças morreram,
Alegrias breves.
Ah, deixa a tua mão
Como se fugisse
De sentir—se triste
Dar-me algum alívio!
Não importa à mente
Se ninguém entende.

Sobre a minha fronte
Fique a tua mão.
O que a vida é
Já vale tão pouco —
Frágil o penar,
Caduco o pensar.

Leva em meu cabelo
A dor de minha fronte.
Aí corre um trilho
Que, leve, atravessa,
Pesada, a cabeça.

Que digo com isto?
Só palavras ditas
De ocioso canto.
O que aqui lamento
Nunca aconteceu.
Só que paz não há.
Repouso, vem já!

 


HORIZONTE

I


Ignotos abismos no profundo mar,
Em fundos gelados
(Os despojos da batalha não são teus)
No sono enterrados.

Nem visão do alto, nem monte a brilhar
Pagam teu castigo.
O anjo secreto não te leva em conta
O ganho perdido.

Na boca da esfinge o conto morreu,
Já relvado o trilho.
Nossa mágoa irá até onde a levaste
No Desconhecido.

Esperas oculto ou é calmo repouso
O que o silêncio proíbe?
Dá-nos ao menos tua vã demanda,
Teu prado florido.

 

II


O mar é já uma linha branca
No meu desejar.
E, sombrio e subtil, o vento vem
Num estranho tocar

Para alcançar meu desespero e dor,
Meu espanto anoitecido,
O sentido oculto da chuva iminente
E meu prazer perdido.

Por buscar amor, a razão perdida
Se repousa assim:
A visão secreta, o bosque luzente
E as árvores ao fim.

 

 


OS DEDOS DELA BRINCAVAM DISTRAÍDOS COM OS ANÉIS


Há anjos caídos no modo como tu olhas
E, em teu sorriso, grandes pontes sobre rios silentes.
Teus gestos são uma princesa solitária sobre um livro sonhando
À janela aberta para um lago, em qualquer ilha distante.

Se eu estendesse a minha mão para tocar a tua,
Seria manhã por detrás das torres duma cidade, num Oriente qualquer.
As palavras ocultas em meus gestos seriam luar sobre o mar
De seres algo em minha alma, como alegria na festa que houver.

Que o teu silêncio me diga dos imensos sonhos que és.
Que o baixar das pálpebras prolongue paisagens perdidas.
Os jactos de água regressam ao escutar da sua irrealidade
E esta é a flor que colho, sonora, daquilo que silencias.

Flores e mais flores ao longo da estrada do teu falar próximo.
Jardins do século dezoito, tristes agora no nosso sonhar,
São o modo como te assumes nas tuas pálpebras, lábios e faces.
Uma criança doente vê a chuva cair pela janela do que vens mostrar.

Não pises o silêncio, esse palácio onde a nossa consciência
Vive nosso viver duplo, duma alma só, em jardim avistado.
O que somos, no nosso sonho de nós, senão um quadro que é
A obra-prima de um pintor que nem sequer houvesse pintado?

 

 

 

 

VI. CANÇÕES APÓS O SONO

 

 

A CHAVE PERDIDA


Longe da vista da praia!
Cansado de cada mar!
As coisas são sempre mais
Que o mais que possam mostrar.
Que passos junto à minha porta pareço escutar?

Perca-se forma e pensar!
Fuja senso e sentimento!
Ó tristeza, sê bem-vinda
Se afastas contentamento!
Que aves cruzam na janela a sombra de um momento?

Que os passos mal sejam passos,
E aves, asas sonhadas,
Ainda há dor que ultrapasse
A vida a que está pegada,
Mas para saber que dor, não há passo que me ampare
E qual é que é essa dor, não há ave p’ra cantar.

 


O GIRASSOL

I


Tudo o que brilha, olhos de Deus são.
Tudo o que se move, de Deus o falar.
Cada coisa tem tudo a ensinar
À nossa despertada suspeição.

O verde, nas folhas, de Deus pensamento,
O amarelo, girassóis, quando pensado.
Contudo brilham longe, em separado
Das mãos com que Deus os vai tecendo.

Leve sobre o chão é o meu pisar,
No entanto faz eco pelo espaço,
Nos abismos terríveis confrontado
Com Deus perto, sem nunca o encontrar.

 

II


De anjos, meus sonhos são o beijar.
De leve tocam o meu coração,
E a sombra traz carícias devagar.
Minha parte mais divina eles são.

Aqui em minha mão há uma flor —
Flor que nos campos não se pode ver.
Deus olha e, Ele que é o sonhador
Que do sonho constrói, pode entender.

Ele sabe, dos sonhos, o nascer,
Ele sabe, das flores, o alegrar.
Olhai: a minha taça vou erguer
E o vinho da loucura Deus vai dar.

 


AS HORAS


As horas estão cansadas de ser horas.
Oh, ser algo mais! Seu fardo
É flores, sonhos e gente envelhecer,
Boca fria e pêlo pardo.

Elas murcham e matam a beleza.
Quando p’ra trás vão olhar
Seguindo o caminho do dever cumprido,
Só o choro vão encontrar.

Por isso dizem: Oh, ser algo mais!
Pois elas pensam saber
Que as coisas e o pensar que vão tirando
Não mais vão acontecer.

Mas não sabem, escondendo aos avaros
Falsos bens que não são seus,
Que tudo tem um Sentido Secreto —
Sim, até o Próprio Deus.

 


LA CHERCHEUSE

 

Pálida, com o sentido de ser mortal,
Pelas clareiras do desejo ora passado,
Bates com frias mãos ao silente portal
Do palácio das sombras encerrado.
Tuas mãos caídas, olhos de procurar.
Oh, deixa beijar-te os pés e esperar!

Não queiramos entender e, corajosos,
Desesperemos de desesperar;
Mãos frias dadas, insensíveis, mortas,
Partamos em busca de um Qualquer Lugar
Com corpos nenhuns, pelo frio desfeitos,
E pela noite invisíveis feitos.

Talvez que perdendo o terreno fim,
Nosso senso de nós no fundo adormecido,
Súbito fiquemos só Alma, enfim,
Para a ventura, mão na mão em espírito,
Tendo, não do espaço, o Portal passado,
Vede! À graça eterna teremos chegado.

 

 


CANÇÃO


Desfolha lírios e rosas lança
No caminho por onde ela avança,
Ela a quem os astros cantam hinos,
Ela, a irmã de anjos divinos!

Poalha do sol, ao sol movida
Na frescura da manhã tecida
Em vestes leves para adejar —
Vesti-vos todos para a louvar!

Sombras rubras, murmúrios de fontes,
Neblina a coroar as frondes
Da alvorada — tudo para ela
Neste festim da primavera!

Ela que por nós desceu dos céus,
P’ra que nossos sonhos fossem seus,
E uma abençoada inquietação
Se misture à nossa agitação.

Da terra, as ofertas p’ra lhe dar,
Donde a alegria brota a cantar —
E, cada dia, tudo isto é seu
P’ra que não sofra a falta do céu.

 


ANAMNESE


Algures onde nunca hei-de viver,
Um palácio com jardins,
Beleza tal que sonhá-la faz doer.

Ali, alamedas de sombra sem memória
E flores de um ante-tempo,
Lembram, antes do ser, a vida de outrora.

Ali que feliz eu era e o menino
Que tinha frescas sombras
Onde era bom sentir-se sozinho.

Levaram tudo o que de vero havia.
Ó meus perdidos prados!
Minha infância antes da Noite e Dia!

 


CÁLICE


Cálice da comunhão
Com brilho que se perdeu!
Comunhão em união
Entre meus sonhos e eu!
Ó cálice tão amado!
Em teu vinho de outras vinhas
Para lábios, flores de Deus,
Minha alma pôs a hóstia
Das minhas horas divinas.

Sinto meus lábios beijados.
Triste alma canta contente.
Ó brilho visto entre névoa
De anjos de asa fremente!
Sinto-me o centro de Deus,
Criança, na vida à solta
Tal como eu me encontrei
Quando de Deus acordei
E senti o mundo à volta.

 

 

 

 


VII. O FACHO TOMBADO

 

 

ELEVAÇÃO


I


Antes de haver luz, a ideia da luz brilhava
Em Deus que a pensava,
E porque no pensar divino a ideia da luz passou,
A luz para sempre ficou
E se fez, vinda do além da eternidade,
Chama viva, em verdade,
Que ao viver estremece e fica colorida
À dimensão de nossa alma e vida.

Antes da luz, quando a noite inda era rainha
Sobre o mundo que tinha,
Na presciência de Deus podia ser realidade
Essa luz da eternidade,
Pois o tempo não entra no divino pensar
Nem a Hora tem um lugar.

Toma assim, meu Canto, da luz o modo de estar
E fica a cismar
Como a Pomba não nascida, sobre a fundura imensa
Da consciência,
Tirando como teu quinhão esse divino pensar
Que a luz fez brotar.

Que as palavras irrompam dessa chama divina
Que em seu nome ilumina
As coisas por dentro, seu sentido elementar.
Mesmo que a terra esteja a tapar,
Em fixa aparência, o Sol em cada Criatura,
No teu voo em altura
Leva os raios do Sol ainda por nascer,
Dos quais é tecido o viver.

Eleva-te, Canção, da noite e do sofrimento
E capta a luz no momento
Antes que ela apareça no horizonte, em ascensão,
Pronta para a acção,
Trazida dos sonhos pela visão intensa
De luz imensa.

Mesmo não entendida ou acreditada,
Sê refrescada
No sopro-brisa com a manhã trazido
Do Não-nascido.
Ergue o teu voo, como pela madrugada a cotovia,
E teu rumo cria
Frente ao possível dia vivido,
Na aurora escondido.

Não importa que ninguém entenda o teu dizer.
Um tempo irá irromper
Da eternidade, como rompe cada dia
Da noite que havia.
Tuas asas tocarão a luz oblíqua das madrugadas
E, para cima levadas
Banhadas de luz, dessa luz perto estarão
Quando ainda é escuridão.

A esperança é teu voo prontamente erguido
Da noite fugido,
alegria é o tocar dos primeiros raios do dia
Que se denuncia,
Vida é o caminho que rouba o teu voo à terra soturna
Em sombra nocturna,
E estas três coisas se fazem uma em teu crer
De que é breve o sofrer.

 

II


Tu, Ave invisível, essência de espiritual fulgor
Mas que tens o teu esplendor
Na condensação da externa claridade,
Tu, que és minha e na verdade
Não minha, já que a todos na terra pertencendo,
Asas de um renascimento
Cujo canto, embora ouvido em mim, participante
De tudo no todo exultante,
Tu, ponto de encontro de mim com as asas
Em cada coisa veladas,
Tu, sopro, visto ou invisível, vapor
De abstracto amor,
Tu, exalação do voo aprisionado,
Das coisas pesado,
Tu, que em mim és medo, louco esplendor,
Tudo feitiço e dor,
Atrai-me, leva-me e ergue-te, ó puro voar,
Comigo em teu olhar,
Perdido, solto, nu e divino nas alturas
Onde está o que procuras!

Ó Cotovia-Espírito que acordas de madrugada
E és renovada
A cada vinda do sol que se revela,
Sendo a mais sábia parcela
De toda a mensagem ao nosso terrestre ver
Do dia que vai se erguer!
Ave sem peso que nem os campos conseguem chamar
Mas que tem de realizar
O seu destino no ar, sobre pântanos desolados
E fundos prados,
Com a Grande Trombeta nas livres alturas a viver
Mesmo ainda por nascer!
Ó Ave estéril, sem ninho ou lar possuir,
Apenas o que surgir,
Que só tens voz quando, no alto, a pairar
Sobre ninho, amor e lar,
Pensando apenas no dia que vai nascer,
Mesmo se longe estiver,
Pareça, aos que medem teu voo na subida
Só pela altura atingida
E não pela intenção, que é levada
Da vida e ligada
Àquelas horas divinas que só as coisas aladas
Encontram com suas asas!
Ó Ave de canto impiedoso e voto indizível,
Cujo voo alcança em seu nível
Alturas imensas, de ar puro, libertadas
De alegrias medidas, pesadas!
Leva em teu propósito todo o meu coração
E faz o voo da minha canção
Descer à terra, semelhante ao teu canto
Em estranheza e encanto
À distância, a perder-se em mistérios sem fim
Lá ao longe! Canta, sim,
Seja meu peito o que diz teu cantar,
Minha vida teu voar,
Meus medos e esperanças teu som nas notas que fluem
E a mim flutuem,
E seja o alto desígnio oculto em meu fado
Pela tua altura dado!

Meu coração será feliz assim, mesmo se dorido,
Livre, inda que oprimido,
Para manter a alta alegria donde vem o encanto
Do teu ao nosso canto.
Possa então a alma ser feliz, plena e em liberdade.
Oh, em felicidade
Ergue-me de mim e eleva-me a vida até possuir
O que tentas conseguir —
A luz, o céu, a distância e o amanhecer
Até que eu, por nascer
De novo para a dispersão pura nos mares
Dos elevados ares
Que te falam da luz, antes da luz nascer e o dia,
Até que a alegria
De ser, sem meu ser, me vá transformar
Em céu e cantar!

 

 

PARA ALGUËM QUE CANTA

 

Ó voz que anjos beijam antes de exalada!
Ó boca por essa voz purificada!
Ó olhos ávidos de divino cobiçar
Tua presença, fazendo de ti um altar!
Oh, que este instante de ti fosse Tu-Mesmo!
Que nunca deste Tu te desprendesses
E que os dias ricos, avaros de a vida gastar,
Não te tocassem desde este divino dar!
Ó tu, eterno na tua realidade!
O voz de esculpida imutabilidade
Na carne-pedra do espírito! Dá liberdade
De tudo ser, no visível, limitado!
Ó firmamento, de prazer puro e sossegado,
Com grandeza de alma e canto dos céus
Sobre ti, entre as humanas alturas de Deus!

Canta mais, e que o teu canto seja um berço
Àquela parte de mim que reconheço
Na minha alma, onde Deus é ser e lar!
Dissolve-me no teu som! Faz-me tornar
Um avesso de mim mesmo, p’ra sentir
Nada mais que o vago senso de te ouvir!
Aos sons a que dás voz quero pertencer!
Deixa-me ser outro eu e ter prazer
Ouvindo o tempo que, como a brisa, passa
Onde teu canto o prende em sua fresca graça!

Tua voz conduz a venturas aladas,
A celestes parapeitos, donde criadas
Para as almas tal beleza e sedução
Que, senti-las, torna a vida em aflição
E todo o senso da vida em desejo de morrer.
Oh, continua! Entre o som, de humano sofrer,
E no sentido da canção há, entretecida,
Uma terceira realidade, menos sujeita à vida,
Ternura mais subtil que o som ou letra cantada,
Ternura que, sem lua enluarada,
Leva a nossa fantasia pela mão
E nossos passos cansados à compreensão.

Canta, não pares até que a alegria doa!
Oh, que eu pudesse, sem mover minha mão,
Estender outra, da minha imaginação,
E tocar o corpo que te confere o cantar!
Esse toque-beijo iria então despertar
Em mim a eternidade e, como um belo dia,
A noite que sou no corpo eu deixaria
De ser e noutra forma, imaterial,
Como um navio dobrando o cabo final,
Gozaria a vista do porto e a chegada
Que Deus concede aos que o bem da caminhada
Mais não é que a busca e fusão em sua paz,
Como um perfume na brisa se desfaz.

 

 

O EU ANTERIOR


Já fui outro em outra vida
Antes desta e deste ser.
Quando a lua os bosques vem
De fadas, gnomos encher,
Um sonho aparece em mim,
Qual luz brilhando sem fim
Algures em mim, à distância,
Em mares que então conhecia
E em terras sem lugar
Onde o dia é outro dia.

Sonho, e tal como o sopro
Que na brasa a chama faz,
Meu peito acende um passado
Que lembrar não sou capaz.
Como a brasa incandescente
Em que o fogo é aparente,
Gasto a riqueza vazia
De um mudo sentido, assim.
Como a chuva cai no mar,
Esvaio-me dentro de mim.

Há labirintos do Eu
Sou meu ser desconhecido.
Tenho, e não sei porquê,
Da visão outro sentido
(Diferente da vã visão
De minha alma em cisão
Com o que me cerca a vista)
Onde ver é conhecer,
E a vida é fé e dor
Que a Dúvida faz correr.

Minha vida só é feliz
Quando em mim não sinto vida;
Tal como o aroma das flores
Delas é alma tecida,
Um espírito corporizado
De mim mesmo foi herdado,
Espírito da minha alma
Carne-aroma de dois Eus,
Perda e riqueza do ser
Que se partilha com Deus.

 

 

A PONTE


Verte em mim beijos de orvalho
E virá a madrugada
Pelo espírito desperto.
Adorna a fronte curvada
Com louro, para que eu veja,
Mesmo sorrindo em dor, minha sombra coroada.

Embora a cabeça penda,
Teus pés, calçados de esp’rança,
Passam e são eloquentes
No modo em que o passo avança.
Algures na relva se fundem
Com aquela parte de mim que outros sentidos alcança.

Sejamos sempre os amantes
Longe da carne, a ceder,
Amantes de um modo novo
Onde não há fala ou ver.
Vagos assim, nosso amor
Não nosso já, tão-só um hálito do Puro Ser.

 


O REI DO VAZIO

Viveu, quando não sei, nunca talvez —
Mas viveu, sim — um rei desconhecido,
Num Reino de Vazios, um reino estranho.
Foi senhor do entre-coisas escondido,
De entre-seres, daquela parte de nós
Que está entre o silêncio e o dizer,
Entre o nosso dormir e o despertar,
Entre nós e a consciência de nós;
Reino mudo que o rei estranho foi privar
Da nossa ideia de tempo e de lugar.

Aqueles supremos fins que nunca o acto
Alcançaram — entre eles e a inacção —
Ele rege, rei sem coroa. É o enigma
Entre olhos e vista, com ou sem visão.
Ele mesmo nunca findo ou começado,
Oca presença sobre o vazio de um vão.
Uma fenda, apenas, no seu próprio ser,
Caixa aberta com o não-ter do não-ser.

Todos pensam que é Deus, mas ele não.

 

 

A FUGA


Eu não aparecerei quando tu chamas,
Pois estou já contigo ao teu chamar.
Quando em ti penso, estás dentro de mim,
E tudo é já teu próprio pensar.

Tua presença de ausência se veste
Em teu corpo, onde a alma escondida.
É em minha mente que inteira estás
E é em mim que tu és possuída.

Fora de ti, dado ao espaço e ao tempo
Teu corpo, mero tu, de mim ausente,
Partilha a mudança, o tempo e lugar,

Pertence a outra lei, de ti diferente.
No meu sonho de ti nada te altera
Em outra, que contigo se compara.
Tua presença corpórea é só a parte
De ti, que a ti de ti separa.

Por isso chama, mas sem me esperares.
Tua voz, ao meu sonho acrescentada,
Juntará mais beleza ao meu pensar
Teu corpo, vivo na mente habitada.

A tua voz ouvida da distância
Mais aproxima tua sonhada presença.
Mais nítida e clara que parecia,
Na minha fantasia fica imensa.

Não chames mais. Tua voz duas vezes
Repetida no espaço verdadeiro,
Quase seria como a realidade.
O segundo som, o eco do primeiro.

Chama uma só vez. E que eu imagine
No segundo apelo, de olhos cerrados,
A visão de teu corpo a cintilar
Na memória visível de teus brados.

O resto será teu prolongamento,
Olhos fechados p’ra não te sentir,
No apelo premente de meu sonho.
Fica longe, calada, mas sem vir,

Pois virias perto de mais à vista
E de meu pensamento irias para ti
Vestindo em mim teu corpo sonhado
(O sonho do teu corpo é infinito)
Com teu limite, o visualizado.

 


O ABISMO

 

Entre mim e a minha consciência
Há um abismo
Em cujo fundo invisível corre
O barulho de um rio longe de sóis
Cujo som em si é escuro e frio —
Sim, sobre a pele do nosso imaginar
A alma, frio e escuro e terrivelmente antigo,
Ele mesmo, não no seu aparentar.

Meu ver tornou-se em meu ouvir
Dessa torrente funda e sem lugar;
Seu ruído mudo sempre a impedir
Meu pensamento do seu poder de sonhar.
Realidade terrível deve pertencer
A esse rio de vago e mudo cantar
Que nenhuma realidade vem dizer,
Mas só do seu ir para nenhum mar.

Mas ai! Com olhos de sonhado ouvir
Ouço o rio invisível arrastar
Consigo, para onde não pode ir,
Todas as coisas de que é feito o pensar —
O Pensar mesmo, o Mundo e Deus
Nessa impossível torrente a flutuar.
Sim, as ideias de Deus e do Mundo,
Do Mistério e do meu próprio Ser,
Como que lançadas de muro invisível
Com esse rio para o mar a correr,
Mar de não haver e nunca alcançar,
E que são do seu nocturno mover.
Mas, oh, aonde esse sol na praia
Desse oceano impossível de chegar!

 

 

VIII. O LABIRINTO

 

 

FIAT LUX


Numa visão, o mundo ante mim floriu
Como a bandeira desfraldada que surgiu
Mostrando cores e sinais desconhecidos.
Com sentidos ignotos, evidentes,
Mas sempre ignotos, desdobrou esses sentidos
Ante meu passivo encantamento.
Exterior e interior feitos um só.
Ideias e sensações em formas visíveis,
Árvores e flores como ideias sensíveis.
Cabos rompiam de Alma por mares conscientes
E sobre isto um céu-homem exalava ventos.

Cada coisa ligada à outra, em sucessão,
Por elos de ser, além da imaginação,
Mas visíveis, tal como o esqueleto
E a carne à sua volta, tudo visível,
Cada um coisa distinta e discernível.

Não havia diferença entre um pensamento
E uma árvore. Ver um rio por dentro
E vê-lo de fora era uma só coisa, a par.
A alma da ave e suas asas a voar
Constituíam um todo interligado.
E tudo isto eu vi, não vendo, assustado
Com o Novo Deus que esta visão veio dar,
Pois era algo p’ra não dizer ou amar,
Mas um novo sentimento, tão diferente
Dos sentimentos humanos de outra gente,
Que em meu espírito assombrado despertou.
Isto num rasgo e bruscamente deserdou
O pensamento, que olha através do meu ver,
Do luxo da vista ordenada que o faz ser.

Ó horror e alegria até à loucura!
Ó auto-transcendência de toda a criatura!
Ó íntima infinidade de tudo, agora
De súbito visível e presente, embora
Não haja palavras com que descrevesse
Essa visão! Vista cujo sentido invertesse
As semelhanças, criando a disparidade
Intimamente contígua à unidade!

Como expressar o que, visto, não se expressa
À vista surpresa que o contempla? Como saber
O que ao limiar dos sentidos vem conferir
Uma ignorância de todo o conhecer?
A ordem analógica, como a seguir,
O conjunto em unidade a querer provar
O sentido intelectual do amar,
Afundando a diferença, na renovada visão,
Entre Deus e um Dentro, na sua imensidão?

Nada disso: o mundo exterior por dentro expresso,
A flor, que do mundo é global visão,
Na noite completamente desdobrada
Até à sua cor e significação,
E assim o nada desdobrando-se, abstracto,
Esse, em auto-velada visão,
Como facto invisível e mostrado.
 
Nada: tudo,
E eu o centro dele para evocar,
Como se o próprio Ver divinizado.
O resto, sua presença visível,
Infinidade oca, auto-sensível,
E todo o meu ser-sem-alma-em-unidade pisado
Em fragmentos, em baralhada visão.

Esta Noite é Iluminação.

 

 

ÊXTASE DE VERÃO

 

Junto a um dia de verão
Fiquei deitado a sonhar.
E de longe a luz, então,
Veio dentro de mim brilhar.
Brilho vero e irreal
Por certo espiritual.

O lado interior vi
Da terra, da aurora, do verão.
Os rios a correr ouvi
De Dentro. Fui levado então
P’ra ver, em cada mistério,
Como Deus é tudo, inteiro.

A poeira que ao sol baila
Pode ouvir-se sussurrar.
Tudo é expressão, tudo fala.
A vista pode escutar.
Das coisa perdi visão.
Ideias, aladas são.

Os restos de horas passadas
Vogam em barcos à deriva
Cobertas de flores caladas,
Sobre meu sonho que corre
Entre margens de mistério —
Este dia quente e eu.

E algo de um cobiçar,
Mas dum desejo diferente,
Sensação de algo faltar
Sem chegar a estar carente,
Mas que se vai dissolver
Antes que doa o prazer,

Um brilho em sombra tecido
Deste dia e de meu ser,
Água de fulgor trazido
Apenas para se ver,
Hiato, pausa, obscuro
Olhar a orla de tudo,

Súbita flauta possível
Em notas sem melodia
Brota, do fundo invisível
De meu ser, sua magia.
E esvai-se do meu sentido
No pensamento perdido.

E olhai! Sou outro ser.
Meus sentidos outros já.
A mão que oculta meu ver
Divina cegueira dá.
Sou música vinda dos céus,
Um tom dos dedos de Deus.
 
E como um príncipe coroado
Sinto orgulho e medo agora,
De céu e terra trajado.
A alma, por dentro e fora,
É sol até aos confins.
Sonho mãos de serafins.

 


ESTADO DE ALMA

 

Minha alma receia o meu pensar.
Tremo com a própria felicidade.
Sinto, por vezes, em mim chegar
Escura, fria, triste e feroz
Como a luxúria, a espiritualidade.

Faz-me com a relva comungar.
A vida toma a cor de toda a flor.
A brisa que não quererá só passar
Sacode, do instante, rubras pétalas
E o coração, sem chuva, é só calor.

Então Deus torna-se um vício em mim
E divinas sensações, num abraçar,
Mergulham meus sentidos em seu vinho
E não deixam outra ideia que o desejo
De ver Deus florir, crescer, brilhar.

O pensar se confunde com o sentir
Na alma, em vaga e quente união.
Como um mar, ante a tormenta p’ra vir,
Uma angústia dolente me sussurra
Como um enxame na minha direcção.

Meus secos pensamentos se confundem,
Se baralham entre si enquanto seu
Volume se amplia e eles se fundem.
Nada distingo em mim salvo impossíveis
Misturas de muitas coisas, todas eu.

Embriago-me em meu próprio discorrer,
Alma e sentidos em seu sumo submersos.
Neles se encharca todo o meu querer.
A vida estagna em sonho e decompõe-se
Em beleza, na queixa de meus versos.

 


INVERSÃO


Aqui, nesta vasta imensidade,
Cada árvore ou pedra vem encher-me
Com a tristeza da felicidade!
Deus na sua plenitude
Em cada árvore ou pedra é realidade.

Uma visão interior exteriorizada
Torna meu claro ser desconhecido.
(Ó Divinamente solitário!)
Deus, na Sua transcendência,
Em cada árvore ou pedra Sua morte ultrapassada.

Sim, na simples casca ou torrão
De terra e pedra e árvore,
Deus é Sua afirmação,
Deus na Sua divindade,
Alma concreta, em cada coisa abstracção.

 

 

SONETO

 

Deus fez de meus nervos Sua humana lira,
Lira em curvas que em rostos de anjos acabam.
Se Deus canta, o canto é fogo invisível
E asas quase visíveis nele pairam.
Fonte de um desejo incorruptível!
Ilha verde-ouro que faz meu barco seguir!
Minh’alma, rica de eleita, fatiga
O meu sentir com ânsia de a Deus se fundir.

Mas viver é já com Deus se misturar.
Só precisamos da vida e de mais nada.
Dor, ódio, gozo, traição, o penar
Do hábito, a via dos sonhos, a faca
Que a dor esconde até que a corta em deleite —
Tudo isto é Deus e Dele o próprio despeito.

 


TERRA DE ESPERANÇA


Um dia, parado o tempo,
Nossas vidas cruzarão
Livres de Nome ou Lugar.
E de nós só ficarão
As melhores coisas que havia
De acordo com esse Dia.

Amaremos de outro modo
Questionando o velho amor
Que antes nos comovia,
Quando solidão e dor
Era o que a alma ganhava
Da contingência em que estava.

Ali, o céu entre nós
Ao tacto real está,
A textura luminosa
De nossas vidas, trará
Deus, em sopro, ao nosso qu’rer.
Morte ali não tem poder.

O sofrer ou suspirar,
O cuidado, o desencanto,
A expectativa e o grito
Que vai do prazer ao pranto,
Nada precisa de estar
Onde eterno é o amar.

As horas farão o amor
Mais jovem e duradouro.
Antes do tempo conseguem
Refazer mais puro o ouro.
E não haverá lamento
Possível ao pensamento.

Nessa região suspensa
Sob o céu, só claridade,
Nossas almas se confundem
Em verdadeira unidade
E nada será capaz
De ao peito tirar a paz.

Terra dourada onde Deus
Em Seu Tempo um Dia andou
Não como no mundo, onde Ele
Nem um momento habitou,
Onde Seu passar se sente
Como algo sempre ausente.

Meu coração pensa nisto
E sofro p’lo só sonhado
E ela, que me faz feliz
No velho amor renovado,
Irreal é como o sonho
Que nestes versos componho.

Mas, quem sabe? Talvez isto
Não seja querer, mas visão.
Talvez o amor, felicidade
Que sinto na sem-razão
Seja outra realidade
Que o sonho vê de verdade.

Talvez que donde se encontre
Isto lance o seu conjuro.
Alguma coisa impossível?
Terá Deus confins ou muro?
Se este sonho aconteceu,
Não pode um dia ser meu?

Quem sabe o que são os sonhos?
E quem sabe o que Deus faz?
Talvez só a vida impeça
A revelação que traz
Beleza da fantasia.
Nada é só o que parecia.

Algures, bem perto de Deus,
Tudo será já visível.
Oh! que eu não duvide mais
De que isto seja possível!
Mais estranho o que se tem
Que a centelha do além.

Meus olhos, de prazer, loucos
Porque tenho este pensar.
Eles não podem deter-me
Pois Deus não deixa de dar
Para o alto pensamento
O leve dom do momento.

Meu jardim está agora
Pleno, em nova floração,
A boca beija a alegria.
Porquê, não sei a razão.
Com o coração parado
Em águas de luz eu nado.

Um halo de esp’rança envolve
A alma. Sou a criança
Que exclama: Vede! Encontrei
A estranha flor da esp’rança.
Ignota flor enterrada
De mortos sonhos gerada.

Senso tremente de ser
Mais que ao senso é permitido,
Ave do sentir ao ver
O ouro da terra escondido
Romper numa alvorada
Em sopro, luz desmaiada,

A presença entretecida
Com raios duma luz distante,
Fascínio, poder roubado
De alegria radiante,
Eu me esvaio e desfaleço
E o próprio sonho pareço.

E se não for como o vejo
Oh, Deus, trá-lo até mim!
Afasta de mim a dor
Porque Te sonhei assim!
Que aquilo que tanto anseio
Seja este divino enleio.

Que isto se pareça ao céu
E seja sempre meu lar,
Mesmo que o viver implique
Só esta hora gozar.
Em Deus será um instante
Eternidade bastante.

 

 


O FIM


Deus sabe. Fiquemos deitados
Contentes de assim dormir,
Sorrindo o que já chorámos;
Como em reinos a ruir
Em fundo silêncio, as estrelas
Sorriem, nem sabem elas.

Deus sabe. Mas Ele não soube
E se não, o que fazer?
Não importa se não coube
Nossa vida no viver.
P’lo sono e lágrimas ledos,
Embalemos nossos medos!


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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