Qual a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda (sendo verão),

Ou, sendo inverno, baste ‘star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não.

Qual é a mão cariciosa
Que há-de ser enfermeira minha —
Sem doenças minha vida ociosa —
Oh, essa mão é morta e osso...
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso.

22 - 1 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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