Aconteceu de além dos montes
De um Novo Sol a Nova Luz
Em febre de oiro os horizontes

Fantasmas vêm em cavalgada
Pela névoa da manhã aberta
Fazem um silêncio na estrada
Maior que o da estrada deserta...

Trazem pendões, grandes pendões...
Grandes pendões do Rei que volta
Fila espantosa de visões
Que o Sol da Terra  solta.

Cresce e vem e não tem fim
Na estrada a imensa cavalgada
Quem vem à frente e traz assim
Toda luz a perdida Espada?...
 
Que gládio de vitória a Vida
Brilha nas mãos de 
Que névoa duma qual descida
Viseira encobre o rosto seu?

Ninguém sabe... E na manhã baixa
A cavalgada cresce e cresce
E cada vez mais a alma acha
Que a Hora Divina aparece.

E que no seu cavalo branco
Com sua antiga  fidalguia
Vem Quem dará 
E nova luz dará ao Dia...

Devolve Deus à nossa Raça
O cavaleiro que cessou
De ser Presença na erma e escassa
Arábia onde outrora ficou...

Devolve-o Deus e pela aurora
Donde ninguém sai aparece
Com sua vinda acorda e chora
Da alta alegria que estremece

O povo erguido das cidades
E alma antiga lusitana
Reconhece que 

Há luz, há luz dentro dos peitos
Nas almas há aurora e cor!
Nasce a lembrança de idos feitos
Em nós com presença e calor!

Irás pela vã manhã da Terra
Mas sua manhã espiritual
Apareça outra vez [...] em guerra
Com guerra  e final

D. Sebastião e os cavaleiros
O Encoberto volta e vem
E pelas encostas dos outeiros
Cresce o que segue 

E até nossa alma comovida
Desce o Rei regressado e agora
Em todas as veias da nossa vida
Raia a Aurora, raia a Aurora!


 espaço deixado em branco pelo autor.

 

7 - 9 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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