FLIS

Pascei, minhas ovelhas; eu, enquanto
aquele passarinho canta ou chora,
chamarei Coridon com triste pranto.

Se entre vs, belas plantas, amor mora
— plantas, j vos amastes — , tende mgoa
de mi, pois que me ouvis queixar agora.

Ai cruel Coridon, cruel a frgoa
em que vivo por ti! No tens piedade
de ver meu peito fogo, os olhos gua?

J no amas a Flis? Ah, crueldade!
Ai triste! E que farei? Em poucos dias
mudaste tu de mi tua vontade.

A Flis j deixaste, a quem trazias
no formoso Vero formosas fruitas,
sinal do grande bem que me querias?

Sabes, cruel, que tenho causas muitas
para te convencer, de que queixar-me;
por isso vs fugindo e no me escuitas.

Puderam os teus rogos abrandar-me:
os meus — triste de mi! — mais te endurecem.
J no acho em que possa confiar-me.

Aqueles doces versos j te esquecem,
que tu nos lisos lamos cortavas,
onde com teus enganos inda crecem?

Arder por meu amor neles mostravas:
Eu, crendo que era assi, no entendia,
quando fingiste amar, quo pouco amavas.

Tristes meus fados foram, triste o dia
em que nasci : coitada de mi, triste,
que em mgoa se tornou minha alegria!

Logo que a tua Galateia viste,
vi eu deste meu mal grandes agouros;
e tu da parte esquerda um corvo ouviste.

E no tem Galateia mais tesouros,
nem tem mais formosura, inda que seja
ou de alvo rosto, ou de cabelos louros.

negra violeta tem inveja
o branco lrio, porque tal no tem
o cheiro, que vencido no se veja.

Ttiro arde por mi; Ttiro, a quem
mil Ninfas do capelas de mil flores;
mas ele a mi s chama, a mi quer bem.

Eu desprezo por ti muitos pastores,
e tu por Galateia me desprezas!
Tal pago ds, cruel, a meus amores?

Em que te mereci tantas cruezas
quantas usas comigo? Porventura
usei contigo de ira, ou de asperezas?

Prouvera a Deus que to isenta e dura
me viras para ti que nunca viras
em mi sinal de amor ou de brandura!

Se eu fugira de ti, tu me seguiras;
por mi arderas, no por uma ingrata
por quem choras em vo, em vo suspiras.

Bem me vinga de ti, pois te maltrata;
mas eu te quero tanto que desamo
— por mais que tu me mates — quem te mata.

Respondem-me estes montes, quando chamo
por ti com triste voz; Eco responde
das lgrimas movida, que derramo.

E tu no me respondes, nem sei onde
te leva esse desejo; mas bem sei
que amor e desamor de mi te esconde.

Ai triste Flis, triste! Onde acharei
remdio a tanto mal? O fogo puro,
em que me abraso, com que abrandarei?

J fugira daqui, por mais que duro
fosse o deixar o ninho em que nasci.
Mas no h contra Amor lugar seguro.

A morte s — mil vezes isto ouvi
nossa Clia — por remdio espere
aquele que a Amor fez senhor de si.

Ento, por que de todo desespere,
este Cego, a quem cegos ns seguimos,
a mi por ti, e a ti por outra fere.

Se eu morrera no ponto em que nos vimos,
no vira tanto mal. Mas que da sua
sorte fugisse algum ns nunca ouvimos.

Eu me queixo de ti, e tu da tua
Galateia te queixas; e no vs
que mais piedosa te , quando mais crua.

Sendo tu to cruel — to cego s! —
queres achar piedade? Como queres
que te creiam teu mal, se o meu no crs?

Que eu viva com pesar, tu com prazeres;
no quer o justo Cu. Ou ambos tristes,
ou ledos ambos, si: mais no esperes.

Selvas, que noutro tempo nos cobristes
com frescas sombras l do ardor de cima,
dizei se a Coridon dizer ouvistes:

«Primeiro h-de tornar o brando Lima
as guas de cristal fonte clara,
que no meu peito novo amor se imprima.

Primeiro que eu te deixe, Flis clara,
me h-de deixar a mi a prpria vida.
Mas quem, por no deixar-te, a no deixara!

Pois tu, Flis, ma ds, eu of'recida
a tenho a teu querer; tu dela ordena
como, doce amor meu, fores servida.

Por ti me ser branda a dura pena;
por ti suave a dor, leve o tormento,
a que me inclina o Fado, ou me condena.»

Ah falso Coridon! teu pensamento
era enganar-me: dada a f me tinhas;
e a f coas palavras leva o vento.

Mas — ai triste de mi! — tambm as minhas
o vento vai levando. O sol posto.
Porque, ligeira luz, te no detinhas,
enquanto em meu queixume achava gosto?

 

 

 

Luís Vaz de Camões
[PASCEI MINHAS OVELHAS; EU ENQUANTO]
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