Era um leproso nojento
Que em ruínas habitava;
Ali e sempre escondido
O vento cavo passava,
E todo o pasto bravio
Amarelo, enfraquecido.

E o leproso cantava:

«O leproso é um banido,
Ele foi escorraçado,
O leproso foi excluído
De casa, caminho e rua;
Não pode o rosto mostrar
Onde o ser humano actua.
Para ele pedra e chicote;
Nem sequer pode ficar
Onde os cães disputam ossos
E lhes permitem brincar.

Os vermes têm mais sorte,
Tão infeliz nem animal.
Mas o leproso é maldito
E sabe da maldição;
Pois ser leproso interdito,
Do que é mau, o pior mal.

O sapo, a cobra, o tritão
Tudo nasce, é tolerado,
Mas o leproso execrável
Repugna e é desdenhado;
A repugnância é só
Para ele inevitável.

Às vezes ele ouve risos
E música a ecoar
Que vem das festas humanas
Em sons de paz e de lar.
Pelo vento são trazidos,
Pelo vento são levados,
E o leproso ali passa
Todo o tempo, noite e dia,
Sozinho em sua desgraça.

E os grupos que por lá passam,
Distantes, na estrada vão,
Pois nas ruínas bem sabem
Que as chagas da lepra estão.
E se por acaso encontram
O leproso, ao caminhar,
Ele vê que logo apontam
E sabe que vão falar:

«É o leproso nojento
Que nas ruínas habita,
E mais vil que seu tormento,
Mais ascoroso que a escara;
Se ousarmos passar por perto
Vamos cuspir-lhe na cara.»

Pobre leproso que é homem,
Pobre dele em seu viver
Sem culpa, numa ansiedade,
À proscrição deste ser
Não chega o bem da piedade.

Mão Poderosa criou
O sapo, a cobra, o tritão
Mas não lhes deu o pior;
Dando-lhes uma sorte igual,
Livrou-os da solidão.
Mas essa mão fez leproso
Ser leproso, por desdita:
E essa Mão Poderosa
É de tudo a mais maldita.


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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