Sim, vem um canto na noite.
Não lhe conheço a intenção,
Não sei que palavras são.

É um canto desligado
De tudo que o canto tem.
É algum canto de alguém.

Vem na noite independente
De me dizer bem ou mal.
Vem absurdo e natural.

Já não me lembro que penso.
Oiço; é um canto a pairar
Como o vento sobre o mar.

Oiço, oiço; mas ele cessa...
Tinha que ser, porque foi.
Que mais que a alma lhe dói?

5 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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