Como chove! Um desalento
Faz sombra em meu coração.
Chove sem frio nem vento.
É um chover sem estação.
Faz pontos grados no chão.

E através disso o sol doura
Os pingos luzindo a vir.
Há dois tempos nesta hora.
É como estar a sorrir
Da dor que nos vai surgir.

Sim, e aperta a chuva negra.
Não há sol e é preto o chão.
Nada em mim finge que alegra
Meu fingido coração.
Chove com grande razão.

 

20 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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