Correntes guas frias do Mondego,
dignas de ser somente celebradas
de outro engenho, menos que o meu cego:

correi agora, claras e apressadas,
por esses campos verdes saudosos,
banhando-lhe as flores prateadas;

e por desertos montes cavernosos,
vosso natural curso repugnando,
segui novos caminhos espantosos.

Deixai de ir docemente murmurando
pelos troncos dos freixos e salgueiros,
que o Zfiro move, fresco e brando;

e as fontes de cristal, frescos ribeiros,
refgio pola sesta dos pastores,
que de vs correm mansos e ligeiros,

todos tornem atrs; sequem-se as flores
que nos alegres prados floreciam
com mil diversidades de lavores.

As mui fermosas Ninfas que saam
caar ligeiras feras na montanha.
que em vo achar guarida pretendiam,

da terra a melhor vo da nossa Espanha
buscar novo apascento e novo rio
em triste stio e entre gente estranha.

O lquido elemento claro e frio
que, retratando suas fermosuras,
refreia o seco ardor do seco estio,

das teias de ouro e sedas que em figuras
vivas ao parecer fazem presente
o passado melhor que as escrituras;

a morada quieta e reluzente
de preciosas pedras fabricada,
no mais fundo do rio e mor corrente;

o retorcido arreio e mui dourada
Frecha de ouro, temida e poderosa,
armas da casta deusa venerada;

o branco lrio e a purprea rosa
que, entre outras vrias flores, coroava
a branca fronte pura e graciosa;

o bosque, vale ou selva, que gozava
da doce fala e amoroso canto,
que aos mais duros penedos abrandava;

tudo triste, cruel, cheio de espanto
mostre perptuo inverno e aspereza,
onde jamais se viu seu negro manto.

Os campos se revistam de tristeza;
jamais se veja neles primavera;
em tudo lhe falte arte e natureza.

Nada do que d o Cu, que a gente espera
se possa achar aqui, nem ache abrigo
Ninfa, gado, pastor, nem ave ou fera.

Tudo, como a mi foi, lhe seja imigo;
que, por fora de estrela ou de costume,
fujo do melhor sempre e o pior sigo.

Aquele dos meus olhos doce lume,
por quem alegre fui, por quem sou triste,
e a vida em largas queixas se consume,

donde est, cego Amor? Onde encobriste
um bem de tanto tempo, em um momento,
depois que to sujeito a ti me viste?

Coa vista, co desejo e pensamento
ver o anglico rosto em vo procuro,
que excede todo o humano entendimento.

Ah, tempo avaro! Ah, Fado esquivo e duro,
que partiste a minha alma, e ma roubaste,
quando eu tinha meu bem por mais seguro!

Ah! Para que o gro preo me tiraste
da vida, num desterro aborrecido,
pois o gosto de o ter, tu mo deixaste?

Ah! Quem se vira dele despedido,
quando se despediu uma confiana,
que lhe fazia glria o ser perdido!

Quantas cousas mudou uma esperana,
quanto prazer j vi, quanto mal vejo.
quanto engano naceu de uma confiana!

Deixem o celebrado e rico Tejo
os coros das Nereidas que cantavam,
que princpio e fim de meu desejo;

as peregrinas aves, que alternavam
cantigas aprazveis nos sombrios
vales que amanhecendo retumbavam.

Tornai-vos, olhos meus, tornai-vos rios,
at que a imortal Parca, ou tarde ou cedo,
atalhe tanto mal com duros fios.

Que ainda falar de estado ou tempo ledo
co alvio me tolha meu destino
para que viva de contino em medo.

Mas to longe do bem, de que era indino,
que pode arrecear que j no visse
o vago pensamento peregrino?

Se a meu nimo crera, ele me disse,
antes de anoutecer com mil receios
da dor que adivinhou sem que a sentisse.

Fortuna me tirou todos os meios
de ser contente, e mais com apartar-me
destes campos de erva e prazer cheios.

E pois que neles s posso alegrar-me,
jamais quero ver neles alegria,
que s pode servir de magoar-me.

Vai crecendo coa dor, de dia em dia,
o gro temor, tristeza e saudade.
Faa cansada vida companhia
a perdida esperana e liberdade.

Luís Vaz de Camões
[CORRENTES ÁGUAS FRIAS DO MONDEGO]
Voltar