Ela era só o canto
Que chegava de além
Do muro alto, enquanto
Eu a ouvia, ninguém.

E, porque nunca fora
Ninguém salvo o que ouvi,
Meu coração a adora
E amo-a porque a não vi.

Quanto ainda em nós havia
Da infância que sonhava
Cantando ele dizia,
Dizendo ela cantava.

Depois, como se o rio
Na curva se perdesse,
Era o tédio que, esguio,
A tarântula tece.

 

20 - 8 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar