Se nada houvesse para além da morte,
Nada, e o que o espírito é pronto a querer
O que a imaginação em vão procura
Não fosse nada… E só um vácuo inteiro
No mundo, o enorme mundo perceptível,
Não fosse nem o azulado das ondas
Nem a antecâmara da Realidade
Não outra coisa que o oco dele próprio,
E vazio do ser implodindo
Éter da ininteligibilidade
Onde o erro da razão sobre montes e vagas
Sem nexo em existir sem leis flutua…

Quem sabe se o supremo e ermo mistério
Do universo não é ele existir
Com inteireza tal em existir
Que não tenha sentido nem razão
Nem mesmo uma existência, de tão única,
Concebível… Meu espírito, corrompe-se
Ao místico furor do pensamento…
De horror sem dor…

Se o mundo inteiro, — abismo sem começo,
Poço sem paredes, negro absurdo
Aberto noutro absurdo ainda mais negro —
Não tem possível interpretação
Nem intemporalidade nem futuro
Da razão, ou da alma, ou do universo
Ele-próprio
 Ah o ocaso sobre os montes
Com que réstea de luz nos faz de longe
O gesto lento de nos abençoar…
E nem sombra, nem mesmo definida
Tristeza dói…

Ó sempre mesma dor do pensamento.


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
« Voltar