amo as águas no instante em que não são do rio
nem ainda pertencem ao mar
árduas planícies rosto incendiado pesando-me nos ombros
hirto...tatuado no entardecer de magoada cocaína
leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
nocturna sombra do corpo embriagado
fogos por descuido acesos no húmido leito de juncos
altíssima margem...inacessível noite de Florbela
e o soneto dizia: Sou aquela que passa e ninguém vê
                            Sou a que chamam triste sem o ser
                            Sou a que chora sem saber porquê
apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
os ternos lábios das grandes bocas fluviais
sinto o rigor das plantas erectas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias
junto à foz de meu insegura desaguar...contínuo sentado
escrevo a desordem urgente das horas...medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir
espero o cortante sal-gema das ilhas... a ilusão
de me prolongar na secreta noite dos peixes
adormeço
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar

 


In O Medo
Al Berto
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