Como um poeta do amor antigo
Que vem de risos vãos engrinaldar
A fronte da sua amada, eu quero dar
À alma do meu canto p’ra contigo

Um jeito de grinalda a aureolar
Tua fronte branca, ó mais que □ amigo!
E encher de beijos meu cantar mendigo
Ao menos do soslaio de um olhar...
 
Quero ao menos pensar-te, inda que em falso
Sabor de imagem pática, coroado
Com rosas do meu canto, idolatrado

Em beleza p’Lo dom com [que] te exalço...
Ó meu amor, o meu amor-mancebo
Vinho de Perversão que em sonho bebo!

Aprende meu amor a ser mulher,
Se eu te visse bordar, coser, falar-me
Como ao esposo fala a esposa, dar-me
Teu corpo quasi castamente □

Só ver teus dedos com anéis me fere
De espasmo. Se eu pudesse, amor, enlear-te
Mas com pulseiras, o fitar-te
Seria para mim quasi morrer...

Aprende a ser mulher... Engoma, cose
Eu adoeço só para velares
À minha cabeceira, em fresca pose

Toda a noite sonhei-te e a antemanhã
Quando □ dolorida

Se eu vivesse contigo, dia a dia,
Eu seria mulher, trabalharia
Seria só formosa, satisfeito
Da minha pobre vida □ e fria...
Tendo-te ali p’ra te apertar ao peito
Talvez não te apertar... (Eu que faria?)

Quem me dera que fosses mais donzela!
Que fosses virgem, que ninguém tivesse
Do outro e odiado sexo que me esquece
Sentido sobre si tua fúria bela!

Ó ciúme das mulheres — esta, aquela —
Que foram tuas... Porque foram? Esse
Corpo fez-se p’ra ela? Quem só o desse
Para a ninguém o dar.

Foras tu puro e eu amar-te-ia mais...
Assim nem sequer penso em querer obter-te,
Pois te perdi antes de conhecer-te...
Com que traços odiosos de reais
Vejo em mim teu viril passado, e ver-te
O que foste é chorar-te □

Perdoa ao meu amor o qu’rer odiar-te
Mas eu não sei, á meu amor, se digo
Cousas com que te chamo e te consigo
Ou se meu pranto faz-te afastar-te.

Meu amor, minha amante, meu amigo,
Ó todo tudo quanto □

Fosses tu adorado, a companheira
Da minha vida. Fôssemos casados
Numa capela branca □

Numa casita □
Moraríamos sós e acompanhados
Por nossa simples pura vida e alheados
Da vileza e do mal

E queria que por tão doce e suave e pura
Nos não cansasse a vida e a ternura
O ser o nosso amor, lá entre o mundo,
Um crime douraria de ócio e vício
Nossa pureza e nunca o tédio imundo
De nós nos abriria o precipício...

Vem até minha esp’rança... Eu comporei
Um novo cântico dos cânticos... Eu
Aí só pondo o que em mim encontrei

De amor □ eu farei
Cantando-o até tão □,
Tão mais belo que o outro, que terei
Antinoo esperando-me no céu.

Se eu fosse belo, meu amor, iria
Ser eu a fêmea do nosso □ enlace.
Eu não te chamaria e perderia
Teus lábios, teu olhar, a tua face...

Meu amor, sendo eu feio, □

E eu que amo o puro e o bem, cheguei a isto!
Maldito sejas! (Eu não sou sincero
Quanto mais te maldigo mais te quero!)
Mas quando olho p’ra mim quanto me atristo!

Esqueci tudo quanto amo e venero.
Meu ser quasi de santo, ei-lo oco e indisto!
Da minha doce fé tu és o Cristo
(Ó grato e odioso blasfemar □)

Ver-te foi o bastante p’ra perder
A memória presente de saber
Que há justiça e bondade e castidade...
Raivo de ti, transbordo de sonhar-te
Ódio-me por qu’rer-te, e ao odiar-te
Que ódio de mim por te odiar me invade!

14 - 5 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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