Talvez que noutro mundo, noutro livro, 
tu não tenhas morrido 
e talvez nesse livro não escrito 
nem tu nem eu tenhamos existido 

e tenham sido outros dois aqueles 
que a morte separou e um deles 
escreva agora isto como se 
acordasse de um sonho que 

um outro sonhasse (talvez eu), 
e talvez então tu, eu, esta impressão 
de estranhidão, de que tudo perdeu 
de súbito existência e dimensão, 

e peso, e se ausentou, 
seja um sonho suspenso que sonhou 
alguém que despertou e paira agora 
como uma luz algures do lado de fora. 


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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