Há nisto um sentido insone, um habitante silencioso 
caminhando à frente dos nossos passos, 
dormindo na cama a nosso lado, 
comemos a sua comida, as nossas próprias palavras não nos pertencem; 

uma casa dentro de uma casa, 
uma coisa viva e palpável como a morada de um cego 
tocando-nos levemente com receio de acordar-nos. 

Um dia será ele quem nos dará a mão 
e nos conduzirá por passagens interiores 
para dentro de casa, 
onde há tanto tempo cansadamente esperamos. 


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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