O teu olhar naufraga no horizonte
Plácida dama de eu não te encontrar...
Entre os rochedos que há à beira-mar
Que o teu intermitente vulto aponte

E eu não mais amarei o mar e o monte
Senão através da hora de te achar...
Criança que ao mistério do luar
Enrosca as tranças no seu dedo insonte...

Não tenhas o propósito de ter
Maneiras de viver... Deixa-te deter
Pela passagem casual das horas,

Deixa que elas te esculpam o perfil
Em saudades de um ser teu que antechoras
E não tiveste... Ah, o luar de abril!

24 - 6 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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