A noite passada não tive a ventura
Dum sono profundo e reparador,
Pois pensamentos da maior angústia,
Mostrando cada medo e amargura,
      Impediram que caísse num torpor.

      E o relógio, em maldita fruição
          Da noite, em tom uno e sincopado,
      É um louco, da palavra obcecado,
          Tristemente em solidão.

Milhares de vezes meu mundo girando
Em mim, ao rodopio da razão,
E, à volta da razão sentindo
O escuro, ele mesmo rodando,
Rodeado de negra escuridão.

      E o relógio! Ah, maldita fruição
          Da noite, em tom uno e sincopado!
      Como ele adora a palavra, obcecado
          Em dolorosa solidão! 

Se dormi um pouco, uma imensidão
De sonhos vieram, sem ter a graça
De me abrigar à sombra do sono.
Precipitei-me da alta razão
Para a consciência, na sua desgraça;
Meio inconsciente a queda sofri
E do sono acordei, de estacão,
      Quando no fundo do espaço bati.

      E de novo o relógio na fruição
          Da noite, em tom uno e sincopado,
      Rindo um sentido além da obsessão,
          Maniacamente isolado.


1906

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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