Bons castelos leais, nas rochas construídos,
às contorções do vento, à chuva enegrecidos,
que vamos admirar na angústia dos poentes;
grandes salas feudais com telas de parentes,
que vamos admirar na angústia dos poentes;
os antigos heróis e as sombras dos guerreiros?

Uma grande tristeza enorme vos habita!...
No entanto, a alma antiga ainda em vós palpita.
Evocando a comoção das crónicas guerreiras:
e, mau grado o destroço, a erva e as trepadeiras,
como um desejo bom nas almas devastadas,
cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas.

A parasita hera avassalou os muros!
Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros;
tudo dorme na paz das cousas silenciosas,
e nos velhos jardins, aonde não há rosas,
só, resistindo ainda aos séculos injustos,
uma Vénus de pedra espera, entre os arbustos.

Paira em tudo o silêncio e o lúgubre abandono
das cousas que já estão dormindo o grande sono,
evocando inda em nós as velhos cavaleiros,
e, às lufadas do vento, os grandes reposteiros,
entre as nossas visões das épocas sublimes.
agitam-se, ao luar, sanguentos como crimes.

Mas, no entanto, o poeta entende aquelas dores.
e as mudas solidões, os largos corredores,
as boas castelãs, as góticas janelas,
abertas toda a noute, a olhar para as estrelas...
Só ele sabe os ais e os gemidos das portas,
e inveja, às vezes, ser o pó das cousas mortas!


In Claridades do Sul
Gomes Leal
PALáCIOS ANTIGOS
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