Estarei ainda muito perto da luz? 
Poderei esquecer 
estes rostos, estas vozes, 
e ficar diante do meu rosto? 

Às vezes, como num sonho, 
vejo formas como um rosto 
e pergunto: «De quem é este rosto?» 
E ainda: «Quem pergunta isto?» 

E: «E com quem fala?» 
Estarei ainda longe de Ti, 
quem quer que sejas ou eu seja? 
Cresce a noite à minha volta, 

terei palavras para falar-Te? 
E compreenderás Tu este, 
não sei qual de nós, que procura 
a Tua face entre as sombras? 

Quando eu me calar 
sabei que estarei diante de uma coisa imensa. 
E que esta é a minha voz, 
o que no fundo de isto se escuta. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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