Não é o lago o que no lago é belo;
O azul do céu, sem a beleza, é só
Azul, e não encanto. Só de eu vê-lo
Não tira o horizonte o que me encanta
Eu sei que a flor e a árvore são pó,
Mas não o sinto □

Que cousa alheia interior às cousas
Assim as transfigura e não altera?
Que milagre transforma o pão em rosas
Da útil terra em graça e perfeição.
Que sentimos perfeito neste vão

Ó na noite das cousas existirem
Luar de serem belas, no nocturno
Brilhos apenas, □

Há um lago pequeno e abandonado
Na planície deserta, e ao sol poente
Encontro-o, e vejo-o todo mergulhado
No fulgor da beleza que o céu todo
Derrama sobre o seu □ parado
Não sei de que misterioso modo.

E uma súbita angústia da beleza,
Um súbito prazer feito de dor
Porque seja de mais à natureza
A maravilha de viver sentindo
Um novo ser em forma e cousa e cor
E na □ a beleza.

24 - 7 - 1921
a.m. early (2.)

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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