Senhor, a longa esperança
mui curto prazer ordena;
minha vida está em balança
e a minha confiança
nunca causou pouca pena.
Isto digo
polo que passo comigo
pelo tempo que se passa:
vejo minha morte em casa
e minha casa em perigo.

Certo é, nobre senhor,
que quis Deus ou a Fortuna
que quem serve com amor,
quanto maior servidor,
tanto menos importuna.
Daqui vem
que quem não pede não tem
e quem espera padece,
e quem não parece esquece,
porque não lembra a ninguém.

Muito debaixo da sola
trouxera quanto desejo,
se eu aprendera na escola
onde Gonçalo d’Ayola
aprendeu tanto despejo.
Que o sisudo
deste tempo fala tudo,
quer vá torto quer direito:
e tornando a meu respeito,
pêra mim sempre fui mudo.

Agora trago entre os dedos
uma farsa mui fermosa;
chamo-a A Caça dos Segredos,
de que ficareis mui ledos
e minha dita ociosa.
Que o medrar,
se estivera em trabalhar,
ou valera o merecer,
eu tivera que comer
e que dar e que deixar.

Porém, por cima de tudo,
o meu despacho queria,
porque a minha fantesia
ocupa o mais do estudo
todo em Vossa Senhoria;
e o cuidado,
quando anda assi ocupado,
cuida muito e não faz nada;
a vontade acho dobrada,
mas o espírito cansado.

 

 

Gil Vicente
AO CONDE DE VIMIOSO
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