Como entre os bosques marginais, secretos
Pelo pender cerrado de amplos ramos,
O pensamento perde os seus objectos

E longe já da vida em que ficamos
Ao calmo e vago luarar das águas
Que dormem escamas até onde estamos,

Entre uma nova mágoa esquece mágoas,
Assim no sonho margens novas usa
De onde veja, e abandona as duras fráguas

Onde se a vida talha e a obra é conclusa.
Mas de que serve a riba onde sem barco
Ou a vida ou a ciência é já confusa

Mais vale talvez o paul verde ou o charco
De que ninguém presume mais que nada
Cujo sentido é nulo e o □ parco.

19 - 7 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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