Nunca um apetite mostra o dano
antes de ser de todo efeituado,
mas no fim vem mostrar o desengano.

Dureza a causa; e eu, desesperado
pelo que imaginou o pensamento,
ando por esta serra desterrado,

espalhando a voz ao leve vento,
dele s consolado, dele ouvido,
o fao sabedor de meu tormento.

Que monte h, que no tenha j movido,
que spera montanha ou roca dura,
a fora de meu mal no merecido?

Nas duras pedras acha-se brandura;
falta nesse cruel humano peito.
quem viu nunca maior desaventura?

Pouco pode em ti amor perfeito,
quando de um movimento vive indigno
que jamais se negou a um sujeito.

Da ventura, de vs, de meu destino
pois todos contra mim so conjurados
este vale farei de meu mal dino.

Com ele a noite e o dia meus cuidados
passarei em acerba e longa vida,
em queixas e em suspiros desusados.

Porque sei que sers disso servida,
no deixarei dos montes a dureza,
at tua vontade ser movida.

Aqui me subirei na mor alteza
da serra, onde logo contemplada
ser tua perfeio, tua crueza.

A alma em ti s pronta e ocupada
estando de tormento esquivo e duro,
oprimida ser de ti levada.

Discorrendo um passo e outro escuro,
de mal em mal, de um em outro dano,
a paga tal ver de um Amor puro.

E vendo aqui to claro o desengano,
cos olhos feitos fontes, mudar
lugar to infelice e desumano.

E o que mor tormento lhe dar
a lembrana de algum contentamento,
que, inda que pequeno, magoar;

far por divertir o pensamento
desta parte tristssima mudando
ũa lembrana cheia de tormento.

Ali algum espao porfiando,
tendo por impossvel esquecer-te,
ficar ao vento vozes dando.

Ali se queixar de conhecer-te:
ali dura, cruel, despiedosa
dir: Dize que podes j mover-te,

mais que Vnus – dir -, dize, fermosa.
Quando nessa beleza pura e rara
se ver ũa hora piedosa?

Ali dir, cruel, e quem cuidara
de um esprito to resplandecente
to fera condio, e to avara?

Ali viver triste, ali ausente,
o costumado mal por si sofrendo
de o quereres tu tanto contente,
como o mundo est j conhecendo.

 

 

Luís Vaz de Camões
[NUNCA UM APETITE MOSTRA O DANO]
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