Subi ao plpito negro 
Por minhas mos levantado; 
Levantado 
Por minhas mos esgaradas... 
E, da tribuna mais alta, 
Arrepelando os cabelos, 
Gritei malta: 

— «Camaradas...! 

«Eh, camaradas...! ouvi, 
«Que vou dizer-vos quem sois, 
«Pois vou dizer-vos quem sou.» 

Depois, 

Tudo o que penso de mim, 
A minha boca o gritou. 

Gritou assim: 

— «Desde Job 
«Que sofro as minhas feridas 
«E as minhas resignaes. 
«Bastou: preciso falar! 
«Job, deixa uivar os lees! 
«(Tens uma jaula no seio...) 

«Que este meu ar, 
«Estas vagas mos cadas, 
«Estes vagos olhos fitos, 
«Este vago riso alheio, 
«— No sei quem foi que mos deu! 

«Eu...?! 

«Eu sou um doido aos gritos, 
«Um que torce as mos e berra, 
«Com olhos cegos de p, 
«Com boca cheia de terra, 
«Com sangue roxo nas unhas, 
«Com micrbios nos pulmes... 

«Job, 
«Abre a grade aos lees! 

«Camaradas...! Camaradas...! 

«Eu sou um velho realejo 
«Que, farto j de esmoer 
«Velhas valsas descoradas, 
«Desandou, 
«E desatou a gemer 
«Coisas que ningum do mundo 
«Lhe ensinara, 
«E que ele sempre guardara 
«No fundo, 
«L to no fundo...! 

«Eu?!, camaradas! 

«Eu sou o esboo de Algum 
«Que esteve quase a nascer, 
«Mas no nasceu. 

«... Quem me no deixa ser eu?!

«Viver
«, para mim, duvidar
«Desvairar, 
«Interrogar, 
«Procurar-me, 
«Torturar-me, 
«Agarrar fumo nas mos, 
«E acenar a uns meus irmos 
«Que sinto perto, e no vejo 
«Por causa da multido... 

«Sou um desejo 
«Que no tem satisfao!... 
«Embrio 
«Que nunca pode ser flor, 
«( esta a minha tragdia 
«E esta a minha comdia) 
«Sou a Linha do Equador, 
«Que fica entre C e L... 

«Senhor!.. 
«Responde, Senhor, 
«Meu Autor, 
«Criador nosso, 
«Culpado disto que sou!: 

«Porque animaste o esboo 
«Da Obra que te falhou? 

«Ah, camaradas...!» 

E eu ia, enfim, revelar-me! 
No sei que vento 
Me levantava os cabelos 
E me arrastava 
Num turbilho... 
Todo eu era um alarme 
Que vibrava! 
Abria-se-me a priso! 
Abriam-se 
As minhas fontes fechadas! 
Meus olhos doidos, fundiam-se 
Em lgrimas que nasciam 
Do corao... 

Ento, 

Parei, sentindo risadas 
Entre aqueles que me ouviam. 

E as suas caras diziam: 
— «Que charlato!» 


In Poesia I - Obra completa , Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001
José Régio
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