Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —
As de jogar ou as de Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante,
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite, —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada…

Por enquanto…
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro,
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo…
Sim… Ascendo…
Ascendo até isso:
Não sei se os astros mandam neste mundo…

 

5 - 1 - 1935

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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