Dois gatos, numa grande discussão,
Qu’riam ambos um rato morto: «É meu!»
Dizia um. O outro dizia , «Não!»

Com o pelo eriçado e os olhos feios,
Olharam-se, assopraram, e um no outro
Enterraram as unhas, sem rodeios.

Mas uma gata velha, em vez de a açoite,
A golpes de vassoura sem demora
Pô-los ambos na rua, e «boa noite!»

Não, «boa noite» não, que estava frio;
Havia um vento de cortar a pele,
E, além disso, caía a neve a fio.

Com tanto frio esfriou logo o furor
Dos rivais, que já estavam com saudades
Da cozinha e o seu cheiro e o seu calor;

E, no degrau sentados, tiritando,
Lá fizeram as pazes, e, quietinhos,
P’ra onde estavam trataram de ir tornando.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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