Chega-me a dança rústica por som:
Harmónio, risos, baralhada ao luar.
E isso, indeterminadamente bom,
Suspende a minha pena em seu riscar
O que talvez supus que ia pensar.

Que verdade há em mim? Melhor que aquilo
Que é dança e rumor vário e rir ao vento?
Não: não há nada… Tenho um certo estilo
Quando não escrevo com o pensamento
E o que é melhor depende do momento.

Mas eles dançam, fazem qualquer cousa.
É uma maneira natural de ser
Que em mim nada deseja e nada ousa.
Sinto-me vida só para escrever.
Quem me dera dançar e não viver!

 

20 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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