Em nós o fogo reina, que primeiro
É desejo, e depois, ardendo mais,
Desse mesmo desejo se purifica.
Consume aquilo de que se alimenta,
Os diversos desejos queima iguais,
E quer ser fogo universal e inteiro,
Chama sem lume, de si mesma rica.

Ah, mas depois que tudo é consumado
Que o fogo, por ser fogo, pode arder;
Depois que é em si mesmo sublimado,
Com tal ardência exacerbado dura
Que a si mesmo se queima e faz não ser,
Seu ardor por dentro vira ansiado,
E a chama pura torna-se luz pura.

Assim tornado o ser que sou comigo,
Vi que quando cercara o que eu quisera
—Altar ou vara, livro e templo—
Nunca fora de mim estivera,
Só por julgá-lo tal fora inimigo.

E então vi que essa Cruz em que converso
Jazia o altar outrora meu
Era, em Cruz de Luz, todo o Universo
E que essa Cruz era quem fora eu.
Sobre ela a Luz Perfeita em mim erguida
Caíra, numa inteira identidade,
Pois essa Pedra Cúbica partida
E a minha alma em luz pura resolvida
Eram a mesma coisa, era a Verdade.


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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