Ó praia de pescadores,
Neste pleno dia mole...
Acalmam todas as dores
Quando se estendem ao sol...

Procuro sereno o jeito
De receber toda a luz
E esta praia onde me deito
É quente e macia cruz.

Como uma vela ou uma rede
Ou numa vela deitado
E acalma em mim toda a sede
De me querer sossegado...

E ali p’ra além de meus pés
Ruge o mar próximo e eterno...
Tenho toda a alma rés-vés
De um vago sorriso terno

Que envolve em oca bondade
O céu vazio que fito
Se relembro, é sem saudade...
E adormeço se medito...

Até que sob mim a areia
É mar e eu sinto embalar-me
O som bom da maré cheia
A trazer-me e a levar-me.

E barco de nulo sorvo
Com todo o corpo o saber
Que o sentir-me não é estorvo
A sentir ou nada ser.

E de tanto olhar o céu
Sinto-me ele — o sol me doura.
Tiro o ser eu como a um véu
E estou por fora da Hora...

 

20 - 7 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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