[I]

Mergulha o pensar.
Um sentido íntimo embate e parece chegar ao coração sem ser pelos ouvidos.
Sonhos.
Causa no espírito aquele misto de alegria e dor que é a verdadeira felicidade.
Faz brotar lágrimas do olhar sonhador.
Eleva a Mente acima da terra
E faz descer em nós uma calma profunda.
Fim: pudessem meus versos ter o poder
Que produz essa sensação indizível e funda.

[2]

Que eu lute enquanto vens conceder
Alma a uma divina ilusão
Para combater este meu viver
E o ter um corpo e um coração.

[3]

Quando senti toda a alma ardente
Com a injustiça, a mágoa e a dor,
Súbito a música veio lentamente
Erguendo sua voz em mágica torrente
E todo o meu ser resplandeceu de suave calor.

[3]

Quando senti toda a alma ardente
Com a injustiça, a mágoa e a dor,
Súbito a música veio lentamente
Erguendo a sua voz em mágica torrente
E todo o meu ser resplandeceu de suave calor.
[… …]


[4]

Enquanto desarma o pensar perturbante
Eleva, inda que pouco, o Pensamento
Com a doçura do seu encanto
[… …]
Suave, suavemente rastejando devagar
Som após som, ao nosso ouvido
Na tristeza do seu chorar,
Em misturada doçura envolvido,
A música caminha lenta pelo chão mental, assim surpreendido.

[5]
 
E o seu som triste ou divertido
À sua magia mais denso e maior,
Parece elevar-se por sobre o ouvido
E despertar um sentido interior
Indo directo ao coração, sem qualquer outra sensação exterior —

[6]

Mas teu suave jeito de embalar
Nenhum rio o tem, ao correr;
É semelhante ao murmúrio do mar
Quando embala a alma para adormecer,
Música gemente, calmante, música mágica de fundo poder

Tua voz parece fazer-me sair de meu corpo sem vida, insensível
Levando a mente a mais altos planos. Parece uma forma de sono.

A música cessa; quem dera ouvi-la p’ra sempre; devagar me acorda a dureza do mundo exterior.

Estes são instantes sem par em que a alma se ergue sem falar de prazeres terrenos; que bênção!
[… …]

[7]

Que a minha alma se erga mais alto,
Mais que o pensamento possa exprimir;
Que os fracos sentidos sejam dotados
De profundidade para em mim atingir
Os mistérios e sombras que contra o mundo se vão insurgir.


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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