Sentados sós, lado a lado,
Com a névoa dos montes ao fundo
Do fundo do céu azulado.

(Na hora das rosas a morte)

Eu o que dizia era
Igual ao que eu não dizia,
Princípio da primavera.

(Na hora das rosas a morte)

Os nossos pés, lado a lado,
Quietos na erva, curvando-a,
Na erva de qualquer prado.

(Na hora das rosas a morte)

Sobre nós a sombra dos ramos,
Nossas costas no tronco largo,
Lado a lado, □

(Na hora das rosas a morte)

Braço esquerdo, braço direito
Tocando de leve um no outro
Lado a lado, ali, sem defeito.

(Na hora das rosas a morte)

Sem olharmos um para onde
Estava o outro, mas lado a lado
Ao fundo do fundo o monte.

(Na hora das rosas a morte)

O que a alma me respondia
Do lado de mim, existente;
Era o mesmo que eu dizia.

(Na hora das rosas a morte)

Jardim do princípio da vida?
Ninguém... Lado a lado olhando
Nada connosco a descida.

(Na hora das rosas a morte)

Depois era a estrada deserta
E vedando-a de nós o muro
Lá em baixo, a descida finda2

(Na hora das rosas a morte)

Depois, para além da estrada
Subia outra vez... Lado a lado
Viamos, sem ver nada.

(Na hora das rosas a morte)

Depois era o monte pequeno,
Depois montes e mais montes,
O último o mais sereno

(Na hora das rosas a morte)

No monte do fim se via
A névoa no alto do monte,
Um sol frio aquecia.

(Na hora das rosas a morte)

E a copa da árvore descida
Só pouco do céu azul
Deixava ao olhar e à vida

(Na hora das rosas a morte)

Não sei como foi, ou o que era
Dos montes, da sombra, da erva,
Princípio da primavera...

(Na hora das rosas a morte)

26 - 10 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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